David's Place

Como falar de Allisson David? Não teria nem como, uma vez que apenas conhecendo você poderia concluir o quão especial ele era. David ou Deyv, como gostava de ser chamado, era como a felicidade, você não conhece, você sente.
Engraçado, inteligente, honesto, sincero, trabalhador, um irmão. Nenhuma qualidade que se aponte será o bastante para definir a pessoa especial que David foi em vida e que continuará sendo no nosso coração para sempre.
Ele me ensinou o valor da amizade, o quanto é preciso persistir quando voce tem um sonho, que não importa o tamanho do seu problema, tem alguém em pior condição que consegue ser feliz, que acreditar em si mesmo é sempre o primeiro passo, que música não é um conjunto de batidas rítmicas, mas sim uma composição uníssona de letra, melodia e interpretação. Ele me ensinou como tornar os preconceitos cada vez mais inúteis e a defender os meus ideais independente de qualquer coisa. A saudade que sinto dele sera eterna, assim como todo o amor que em vida nós nos dedicamos. Somos irmãos de alma, a nossa ligação vai se estender através da morte, do tempo, de tudo... Porque as pessoas se vão, mas o verdadeiro amor nunca morre. E sei que esse amor me dará forças para continuar em frente, aguentar a dor e aprender a viver apenas com as lembranças da pessoa maravilhosa que partiu cedo demais, deixando eternas saudades...
A gente nunca diz adeus a quem ama David... Meu coração nunca vai deixar voce ir...




                                             

A Garota e o Fantasma

Parte 1 - Apresentação


voce partiu, seu enterro aconteceu longe dos meus olhos, eu não queria te ver daquela maneira, por isso escreverei essa pequena história, pelo menos eu vou tentar, para que talvez ela me ajude a recordar a sua chatice, teimosia, alegria, inteligencia, e de certa forma aplacar esse buraco que a sua ida deixou no meu coração... Graças a voce eu descobri um mundo novo, uma amizade intensa, forte e inquebrável, nem mesmo a morte poderá nos afastar desse sentimento, e embora ainda seja difícil falar de voce sem chorar, eu sei que nenhuma dor é eterna... A saudade se torna branda, calma, suave até o ponto que eu possa me lembrar de voce e sorrir. Obrigada por todas as coisas lindas que voce me ensinou, uma pena que voce não tenha me ensinado como superar essa saudade que voce deixou em todos nós... Essa historinha não é pra te esquecer, ou porque eu quero me sentir melhor com a sua partida... É para que eu possa me lembrar de voce, com menos lágrimas, e quem sabe até com um sorriso. A gente nunca diz adeus as pessoas que ama, elas permanecem vivas no nosso coração, a parte difícil é aprender a sobreviver aos dias sem a presença, sem o sorriso, sem a implicancia... Sem o carinho que elas nos davam, e é impossível não chorar quando perdemos algo que não pode ser substituido... Dói... Dói muito mais do que parece dar pra suportar, do que eu queria sentir, do que nós mereciamos passar... Nada Nunca vai aplacar esse vazio... Essa falta, esse buraco que foi feito no nosso coração... E por mais que a dor se acalme com o tempo, a ferida sempre estará tatuada na nossa pele... sangrará para sempre... Adeus meu amigo... Saudades eternas...


Em memória do meu grande amigo David... Eu tentarei escrever aqui... A Garota e o Fantasma. Não é um romance, mas a amizade é também uma forma de amor... Katharynny Gabriella.


Sinopse


Alissa é uma jovem diferente da maioria das garotas da sua cidade. Além de curiosidade, Alissa também desperta certo medo na maioria das pessoas pelo seu estilo excêntrico e um pouco gótico, e por ser isolada das outras pessoas. Mas para Deyv, Alissa era especial. Eles eram amigos desde que se conheceram em um dos recreios da escola, eram mais que isso, eram os melhores amigos que se pode imaginar. Só que um dia, Deyv partiu para sempre, mas não para Alissa que de certa forma precisaria dele para superar a sua vida sozinha e perdida...

A Garota e o Fantasma 


[...]Ja passava da meia noite, o silêncio tomava cada comodo escuro, seus passos eram incertos, duvidosos de querer ou não continuar, aos poucos chegou ao corredor que alcançava a sala foi quando seus olhos se depararam com a figura de preto com uma aura iluminada, sentiu um tremor passar pelo seu corpo quando seus sentidos a deixaram e ela caiu.[...]




Sundown City - Agosto de 2011 - Antes




Alissa Dowees entrou pelo corredor da escola, de cara ja sendo seguida pelos olhares curiosos dos demais alunos, os coturnos negros pisavam com força sobre o piso de pedra da Tworeland, a calça jeans e a blusa preta do cannibal corpse davam-lhe de certa forma mais segurança para ignorar os cochichos insistentes conforme passava, os olhos castanhos, acentuados pelo lápis e sombra preta, fitaram com irritação o garoto parado em frente ao seu armário que não fez menção de que pretendesse ficar. Os lábios rubros por um batom vinho só se arquearam em um delicado sorriso quando fitaram Deyv se aproximando pelo corredor. Ele a fitava com carinho, o sorriso em seus lábios, geralmente tão raro, dava-lhe um ar até mais feminino e menos impactante. Com cabelos negros compridos, uma roupa completamente preta e uma grossa corrente pendurada nas hastes da calça de brim, Deyv se aproximou de Alissa dando-lhe um abraço fraterno:

- Oi menina!

- Oi chatinho!

- Ainda vamos pra praça depois da aula?

- Na quinta aula!

- Matando aula de novo?

- E eu que culpa tenho se as aulas são um saco e além do mais um saco sem importancia?!

- Sei, voce vive dizendo isso mas nunca tirou menos que nove!

- Só em matemática!

- Isso pode ser superado pelo seu talento com idiomas e sua habilidade em escrita que apenas perde para minha pessoa!

- Encontrei com a modéstia quando vinha pra escola e ela te mandou um beijo!

- Aula de que agora?

- Literatura Inglesa e voce?

- Biologia.

- Então vai lá e ve se ainda restou algum neuronio funcionando ai!

- Olha quem fala! Maluca!

Bagunçando o cabelo loiro e ondulado de Alissa, Deyv saiu corredor a fora rindo. Alissa conhecera Deyv pouco depois que mudou de turno escolar, os dois empataram no quesito bullying e estilo musical. Ambos eram os únicos amigos um do outro na escola, e andavam sempre juntos. Alissa tinha em Deyv um protetor, um amigo, uma companhia para qualquer momento. Fechando o armário com certa violência ela caminhou até a sala enquanto arrumava os cabelos bagunçados com uma das mãos.

Entrando na sala da antipática professora de Literatura, Alissa ainda mais antipática que ela, andou até seu lugar e se sentou levantando o olhar para ela com indiferença, a maioria dos alunos não tirava os olhos de Alissa, alguns curiosos, outros com medo. Por causa do estilo algumas pessoas acredtitavam que Alissa e Deyv tinham pactos demoníacos e andavam em cemitérios, uma visão além de errônea, preconceituosa. Alissa ja não se importava mais com isso, por um lado preferia o medo das pessoas aos seus sorrisos sempre tão falsos, ela não confiava em ninguém, ninguém além de Deyv.

Na quinta aula, os dois se encontraram para fazer o que geralmente faziam para se divertir, ir até a praça da cidade passar o tempo e ver o por do sol da grama macia. Lá eles se encontraram com Karen, a irmã de Alissa e ainda mais apegada a Deyv. Karen era como a irmãzinha caçula que Deyv nunca teve, ele a adorava. Ao vê-lo a garota de 16 anos correu ao seu encontro abraçando o grandalhão de quase dois metros de altura.

- E ai cabeludo safado!

- Fala pirralha!

- Que bom que chegaram, pensei que não vinham mais!

- A sua babá aqui ja estava preocupada com voce!

Alissa mostrou a língua para ele que começou a rir. Os três se sentaram na grama e Deyv tirou de dentro do bolso o celular e colocou para tocar uma das bandas que os tres mais gostavam: Sirenia, mais especificamente, a música In a Maninca. Alissa era dotada de uma voz lírica notável e Deyv de quatro tipos de guturais diferentes, Karen era aprendiz de Deyv a fazer gutural embora fosse muito tímida. Os três gostavam de passar algum tempo cantando, Alissa ficava com as vozes líricas e Deyv e Karen com as vozes masculinas de gutural.

Deyv era um garoto bom, trabalhava para sustentar a filha de alguns meses e a esposa, Danna de 18 anos. Mesmo assim, por trás dessa bondade havia uma vida difícil que ele e o irmão Dennys enfrentavam: O "pai" que era não apenas alcoólatra, mas sem os mínimos escrúpulos. Ele havia sumido ha alguns meses e deixado ele e a família em paz. A mãe de Deyv era doméstica e trabalhava na casa de uma família rica. Os pais de Alissa e Karen eram de classe média também. A mãe Tamytha era merendeira e o pai Jordan, autônomo.

Ainda na noite daquele dia, haveria um festival na escola onde a banda de um amigo de Deyv e Alissa se apresentaria, mas apenas Karen foi. Alissa decidiu ficar em casa pois tinha um trabalho para terminar e queria ver Justin, seu namorado ainda aquela noite. Karen foi com Suzan, uma de suas melhores amigas. Elas e Deyv se divertiram ao som das bandas de rock que tocaram no pequeno evento da cidade nem saberiam eles que aquela seria sua última noite juntos.

Nas semanas que seguiram, Deyv não apareceu na escola, preocupada com o sumiço do melhor amigo, Alissa tentou ligar para ele sem sucesso. Logo um dos amigos do rock lhe manda uma mensagem:

"Cabelo morreu mesmo"

Cabelo era o apelido de Deyv, por conta das longas madeixas negras que tinha, mais tarde Alissa e Karen se depararam com a verdade, Deyv estava morto. Alissa não conseguia sentir o chão sob seus pés, seu coração parecia perdido em algum lugar longínquo, preso no mais tenebroso inferno, as lágrimas que percorriam seu rosto eram como ácido, cada batida do seu coração era como uma punhalada no peito. Karen passou mal, Alissa se fez de forte para ajudar a irmã, tentou acalmá-la de todas as maneiras possíveis, não entendia o que aconteceu, como era possível? Por que?

A noite fora tortuosa para as irmãs, mas até que Karen conseguiu dormir depois que a irmã fez-lhe um chá forte. Alissa no entanto estava inquieta, não conseguia dormir, o choro sufocado parecia estrangular-lhe, o corpo inteiro estava mole como se estivesse entorpecida, não importava em quantas posições deitasse a dor que sentia só aumentava gradativamente. Foi nesse momento que ela ouviu, era um barulho de panelas vindo da cozinha, provavelmente o gato entrara de novo, pensou levantando-se e calçando o chinelo para verificar, ao chegar na cozinha não viu nada diferente, tudo permanecia igual quando sentiu um arrepio percorre-lhe a espinha e virou-se bruscamente, mas também não havia nada. Ja passava da meia noite, o silêncio tomava cada comodo escuro, seus passos eram incertos, duvidosos de querer ou não continuar, aos poucos chegou ao corredor que alcançava a sala, a porta do quarto dos pais estava logo a frente, entrando na sala ela parou diante do sofá pequeno que ficava em frente a porta, foi quando seus olhos se depararam com a figura de preto com uma aura iluminada:

- Ah Deyv é você! Quer parar de fazer barulho? Estamos tentando dormir!

Falou normalmente como costumava falar com o amigo, feliz em vê-lo como se fosse um dia comum de aula, foi quando relembrou o acontecido àquele dia, Deyv estava morto! Ela o olhou novamente, ele sorria para ela como sempre, um brilho estranho estava emanando dele,sentiu um tremor passar pelo seu corpo, seus olhos arregalados fitavam a figura a sua frente, não podia ser... Nesse momento seus sentidos a deixaram e ela caiu.Quando abriu os olhos, Alissa percebeu que estava em seu quarto, confortavelmente deitada em sua cama e coberta, mas como? Será que estava tão abalada com a morte de Deyv a ponto de ter imaginado aquilo tudo? Fora apenas um sonho? Não... Ela lembrava de levantar, foi real. O arrepio ainda percorria todo o seu corpo, estava pálida. Olhou para a cama de Karen que ainda dormia profundamente, os raios de sol ja se desprendiam no horizonte, ela se forçou a levantar e fitou sua figura em frente ao espelho, estava pálida, abatida, e sentia-se sobretudo morta por dentro.




Como ia conseguir sair? Como ia ficar na escola? Na praça, se em todos os lugares havia uma lembrança dele? Mesmo assim nada podia ser feito, ela precisava encarar, mas a dor que sentia não podia ser ignorada, naquele dia passou pelo corredor do colégio outra Alissa, uma Alissa pálida e abatida, com um olhar mortalmente triste, olheiras profundas, cabelos escondidos por um capuz que vinha do casaco preto que usava, a calça preta e o coturno completavam o visual, nenhum adorno, nenhuma maquiagem, apenas Alissa e a dor que a acompanhava. Os olhares antes curiosos ou assustados agora percebiam que a garota estranha e antissocial tinha sentimentos, que sofria como qualquer pessoa.




Alissa não queria ver aula, com os fones de ouvido no volume máximo ela se perdia em recordações dos momentos que passara com Deyv, as lágrimas eram envolvidas por metal sinfônico, suas músicas favoritas, as musicas que Deyv mais gostava, ainda não conseguia acreditar que ele estava morto, que nunca mais o abraçaria, ouviria a voz dele chamando ela de maluca, de menina. Seu peito doía demais.




- Alissa? - A professora chamou. - Alissa?!




- O que? - Alissa tirou um dos fones tentando prestar atenção.




- Voce não esta em condições de ver aula hoje como todo mundo ja percebeu, vá para casa.




- Eu to bem.




- Tem certeza?




- Sim. - Alissa insistiu secando as lágrimas. Repreendeu-se mentalmente. - Vamos lá Alissa, força, voce consegue! Se acalma droga!




O resto do dia pareceu interminável, na hora de sempre Alissa encontrou-se com Karen na praça onde costumavam se encontrar com Deyv para ver o por do sol, olhando a irmã com os olhos cheios de água, Karen perguntou com a voz chorosa:




- Ele não vem não é? Nunca mais...




Alissa abraçou a irmã com carinho tentando evitar as lágrimas, tentando tirar força de onde não tinha para ajudar Karen naquele momento. No fundo queria que alguém ligasse e dissesse que era mentira, uma piada de mau gosto e que Deyv logo voltaria, que tudo seria como antes. Olhando para o céu ela desejou que ele a ouvisse, que não tivesse ido. O sol se escondeu atrás da montanha e a escuridão começou a tomar a cidade, Alissa ligou o celular com a música Memories, que julgava perfeita para aquele momento porque as memórias de Deyv era tudo que teria agora.




As duas caminharam para casa, tristes, vestindo o preto que desta vez, simbolizava o luto de suas almas. Alissa não chorava na frente de Karen nunca, dedicava seu tempo a manter a irmã calma e entretida com alguma coisa, fosse um filme, um dever de casa, um afazer doméstico. Tentava dar o máximo de carinho que ela precisava e sempre procurava consolá-la quando a dor alcançava tamanho nível que ela precisava desabafar. Enquanto isso, Alissa guardava suas lágrimas se começasse a chorar talvez não conseguisse mais parar. Era o momento de ser forte pela irmã, ela era o único pilar que Karen tinha para se agarrar agora.




Eram duas da manhã quando Alissa despertou, novamente havia um barulho estranho na casa, desta vez no quarto vazio que ficava na cozinha, insegura ela levantou da cama indo até lá e sussurrou um "oi" fraquinho enquanto as pernas tremiam. Nenhuma resposta. Ela voltou para o quarto e sentou na cama levando as mãos ao rosto, Karen dormia profundamente, os pais também, apenas ela estava ali acordada em meio a casa escura e tenebrosa a noite.




- Qual é Alissa? Desde quando voce fica agindo como uma criança de tres anos? Não tem ninguém na casa! Vai dormir!




- Ninguém?! Nossa eu ja recebi um tratamento melhor!




Quando Alissa virou o rosto viu que era Deyv ali ao seu lado, o rosto sereno, terno, olhando-a como sempre fez, ela deu um pulo na cama encolhendo-se contra a cabeceira e abraçando o travesseiro, fechou os olhos tentando evitar o grito e começou a repetir para si mesma:




- É só um sonho Alissa... Acorda! Acorda!




- Vamos lá menina! Voce era menos medrosa antes!




Abaixando o travesseiro Alissa percebeu que ele ainda estava lá, e ria dela com o mesmo cinismo de sempre, o cinismo que a fazia rolar de rir. Assustada e com os olhos arregalados ela gaguejou:




- A-Antes voce não brilhava... N-Não t-tava Mo... Mo... Mo...




- Morto Alissa!!! Fala logo! Até parece que ta vendo um fantasma!




Ele começou a gargalhar, Alissa estava imóvel, era mesmo Deyv, seu melhor amigo de sempre. Como? Ele parou de rir por um momento e a olhou:




- Certo, essa piada foi infame eu sei.




- V-voce devia ter aparecido para a Karen e não pra mim!




- E V-voce devia parar de gaguejar como se estivesse vendo o Freddy Krueger! Eu sei eu to morto, e se eu não apareci para a Karen é porque eu sei que por mais que pareça ela não é forte o bastante.




- E voce acha que eu sou? - Ela perguntou ja mais calma.




- Voce não gritou. É um bom sinal da minha teoria. Qual é Alissa, somos amigos, sempre seremos!




- E o que aconteceria se eu gritasse?




- Hum... Ia acordar todo mundo e pensariam que voce estava louca porque mais ninguém consegue me ver ou ouvir!




- Eu to vendo que o seu humor não foi nem um pouco afetado pela mulher da foice né? EM que eu posso te ajudar?




- Eu que estou aqui pra te ajudar!




- Agora eu entendi menos ainda! Me ajudar em que?




- A seguir em frente. Depois de mandar o meu "papai" - Ele cuspiu no chão. - pra cadeia!




- O que houve com voce Deyv? Quem fez isso?




- Feche os olhos. Não precisa ter medo.




Alissa obedeceu e Deyv tocou em sua testa, nesse momento ela pode ver a cena clara em sua mente, Deyv e Dennys discutiam com o homem gordo e de aparencia asquerosa, ela não podia ouvir o que diziam, mas viu quando o Homem apontou a arma para Dennys e disparou Deyv passou na frente do irmão. Um tiro acertou na cabeça de Deyv e outro nas costas de Dennys que caiu ao lado do irmão chorando:




- Deyv... Cara... Acorda...




Ele falava com dificuldade, o sangue escapando pela boca enquando contemplava seu irmão morto em sua frente, a poça de sangue se formava embaixo da cabeça de Deyv chegando até Dennys que não conseguia sequer se mexer sentindo uma dor aguda em todo o corpo. A ambulancia chegou alguns minutos depois que o homem sumiu, mas era tarde demais, Deyv estava morto. Ao abrir os Olhos ofegante Alissa começou a tremer, as imagens não saíam da sua cabeça uma mistura de raiva, revolta e dor se misturavam dentro dela.




- Não acredito que ele fez isso...




- Então acha que eu sou um fantasma mentiroso?




- Eu falei com indignação Deyv, não com dúvida!




- Eu sei, mas é legal te contrariar!




- Se eu te bater não vai doer né?




- Essa foi uma pergunta idiota!




Os dois começaram a rir, era tão bom sentir aquilo de novo, por um instante Alissa não sentia uma dor tão forte em seu coração, era como se conseguisse sentir que seu melhor amigo estava mesmo ali, era mesmo ele, mas como era possível e porque ela? Deyv olhou-a e falou um pouco sério.




- Olha, eu sinto muito por isso, não imaginei que ele fosse fazer aquilo, o Dennys ta bem, agora tentem não chorar mais... Eu não gosto de ver voce e a Karen assim, voce sabe que voces sempre foram especiais pra mim...




- E como achou que a gente ia se sentir?




- Eu sempre vou estar com voces...




- Da um tempo Deyv! Esse papo sentimental não é nem um pouco a sua cara!




- Agora tente dormir, eu tenho que ir. Mas não se preocupe nos veremos de novo logo. E não ache que esta dormindo se não da próxima vez eu te belisco!




Alissa mostrou a língua pro amigo e sorriu deitando-se na cama, fechou os olhos por um segundo e quando abriu Deyv havia sumido. Ela respirou fundo várias vezes, no fundo por mais real que tenha sentido que foi não conseguia de fato acreditar que aquilo estava acontecendo. O dia amanheceu triste aquela manhã, como se o sol não quisesse mais brilhar depois que a estrela de Deyv se apagou... Alissa despertou preguiçosa, havia dormido pouco, quase nada e não conseguia deixar de lembrar do que acontecera ontem. Será que estava enlouquecendo?




- Alissa o que está havendo com voce?




- Como assim mãe?




- Eu ouvi voce conversando sozinha hoje de manhã.




- Eu estava lendo....




- E quando voce conseguiu a habilidade de ler no escuro?




- Tava usando o celular...




- Alissa voce mente tão bem quanto faz contas de cabeça! Filha, eu sei que a morte do seu amigo te afetou muito... Mas...




- Mãe, me deixa ta?




Saiu. Alissa não queria falar daquilo, ela ainda lembrava nitidamente o que Deyv lhe mostrara, naquele momento ela só queria justiça e conforto para sua alma abatida pela dor da perda de metade do seu coração.


Enquanto caminhava pela rua sem um destino certo, Alissa via Deyv em cada lugar pelo qual passava, ainda conseguia ouvir as conversas, os risos, sentir aquela alegria contagiante que ele tinha. Sentiu seu coração apertar e novamente as lágrimas tomaram conta de seus olhos.




- Caramba como voce é teimosa!




Alissa deu um salto de lado ao ouvir a voz de Deyv, logo o vendo ao seu lado, a mesma roupa preta de sempre, aquela luz forte em volta dele, sentiu o coração subir para a garganta.




- Que idéia é essa?! Quer me matar de susto?




- Bom pelo menos íamos ser amigos fantasmas, tipo o gasparzinho!




- Não teve graça!




- Olha, não é por nada não, mas eu não acho uma boa idéia voce estar falando comigo aqui não.




- E por que?




- Porque vão te achar maluca!




Nesse momento, Alissa olhou em volta e só então percebeu as pessoas a sua volta, algumas a olhavam um pouco espantadas. Ela respirou fundo revirando os olhos e continuou caminhando sem dar importância, ja estava acostumada com o que as pessoas achavam dela. Deyv permaneceu caminhando ao seu lado.




- O que ta fazendo aqui? - Ela perguntou passando as mãos pelo rosto.




- Eu vim porque voce estava chorando, de novo!




- E daí?! Geralmente a gente chora quando perde alguém importante! Leva tempo pra passar sabia?




- Voce é mais forte que isso Alissa, e eu sei que sabe!




- Só me diz como eu vou achar aquele cretino e pronto ta?




- Ainda não. Não é a hora.




- E desde quando fantasma tem relógio?




- Vem cá porque voce nunca me mostrou esse seu lado implicante hein? Eu adorei!




- Não enche Deyv! Acha que é fácil viver sem voce?




- Eu to te vendo de lá de cima esqueceu? To sabendo que não. E também estou vendo o que esta fazendo pela Karen, voce é exatamente como eu achei que era.




- Ah e como eu deveria me sentir recebendo um elogio de um fantasma?




- Alissa, sou eu, o Deyv! Da pra parar de ver apenas que eu to morto e simplesmente me ver?




- Isso é meio complicado.




- Mas eu sei que voce é capaz!




- Quer saber de uma coisa? Se voce não fosse um fantasma eu ia te dar uma surra daquelas! Foi voce que foi embora! Pra que ir atrás daquele demonio? Pra que pular na frente da bala? Achou que era quem? O homem de ferro?! Agora eu a Karen estamos assim, incompletas! E a parte ruim é que a gente não pode te ter de volta!




Alissa parou olhando as pessoas que a olhavam assustada, nem percebeu que estava gritando, com os olhos cheios de água ela esbravejou:




- O que é? Nunca viram uma louca não?! Tão vendo agora! Me deixem em paz!




E saiu rumo a uma praça que ficava próxima ao cemitério. No fundo Alissa não queria aceitar a partida de Deyv, Karen por mais que tentasse manter a calma sempre acabava chorando vez ou outra, estava sendo duro para todo mundo, para todos os amigos dele. Sentando em um dos bancos de madeira, Alissa abriu a bolsa tirando dela um caderno e uma caneta.




As noites escuras vagam, perdendo-se nos ruidos tenebrosos...




Assombrando a minha alma triste e vazia... Eu não quero me acostumar




a viver sem voce... E como eu posso fazer isso? Me explique como




ser eu sem o seu sorriso, sua maluquice, sem aquela alegria que voce




me ensinou a cultivar e que agora descansa a sete palmos da vida.




As feridas ardem na minha alma e continuam sangrando no meu




coração... Eu não posso ver mais nada... Além do escuro inóspito em que




voce me jogou...







Respirando várias vezes para tentar recobrar a calma, Alissa se levantou e guardou as coisas indo para casa, precisava ver Karen, saber se ela estava calma, desde a morte de Deyv a garota passara mal duas vezes, Alissa estava preocupada com a irmã. Era hora de engolir as lágrimas e ajudar quem estava pior que ela. Secou as lágrimas e respirou tres vezes soltando o ar pela boca antes de entrar em casa. Parando por um momento na sala, lembrara-se do primeiro instante que vira Deyv ali depois de sua morte, sua espinha gelou e ela saiu a procura da irmã, alcançando o corredor abriu devagar a porta do quarto e viu que a mesma estava deitada.




- Dormiu de chorar...




Com um salto, Alissa encostou-se na porta ao fitar Deyv sentado em sua cama.




- Caramba voce tem que parar de fazer isso!




- Aparecer?




- Me assustar!




- Desculpe, eu deveria ter pedido um sino de anúncio ou um mensageiro real!




- Engraçadinho!




- Que tal parar de ser teimosa e aceitar os fatos;




- Era só o que me faltava, receber conselho do fantasma do meu melhor amigo!




Nesse momento Karen abriu os olhos, Alissa sentou ao lado dela abraçando-a, a garota começou a chorar enquanto Alissa tentava acalma-la. Deyv presenciava a cena com o coração partido.




- Shh... Ta tudo bem mana...




- Fala pra ela que eu não gosto de ver ela assim... - Deyv sugeriu.




- E voce acha mesmo que vai funcionar?!




- O que? - Karen perguntou olhando a irmã surpresa.




- Nada minha linda... Agora, vamos enxugar esse rosto e ocupar nossa cabecinha com alguma coisa ta?




- Leva ela pra praça. - Deyv falou de novo.




- Claro, ela nem vai mais lembrar de voce lá!




- Ta falando com quem Ali?




Alissa fitou o rosto vermelho e confuso da irmã que a olhava com surpresa. Deyv gargalhava sentado em sua cama, ela pensou em algo rapidamente para enrrolar Karen:




- Ah não é nada meu anjo, eu só pensei alto... Alto demais...




- Aposto que convenceu! - Deyv falou rindo.




- Fica na sua! - Ela sussurrou com raiva pra ele.




Acalmar Karen foi um tanto fácil, Alissa e ela assistiram a um filme e por algumas horas conseguiram se desligar daquela realidade tão triste que enfrentavam, mas dentro de si aquela dor ainda era forte demais, recente demais, difícil demais. Naquele momento parecia que ia durar para sempre, mas Alissa sabia que não era assim, algum dia ela conseguiria lembrar de Deyv e sorrir mesmo que com os olhos cheios de lágrimas.


Alissa sentia-se mole, não tinha vontade de fazer mais nada além de chorar, mesmo que não o fizesse para não piorar as coisas com Karen. A noite ela virava na cama de um lado para o outro e só tinha uma coisa em mente, mandar o cretino que matara Deyv para cadeia ou para o inferno! As lágrimas começaram a cair novamente e ela se certificou que Karen estava mesmo dormindo antes de começar a chorar.




- Alissa... Por favor não chora...




Ela cobriu o rosto com o lençol para não olhar Deyv. Ele riu.




- Vamos lá, não seja teimosa, vem aqui.




- O que? - Ela perguntou incrédula descobrindo o rosto.




- Chega mais perto.




- Vai fazer o que, me atravessar?




- Caramba eu to adorando esse seu lado sabia?




- Me erra!




- Isso seria bem fácil! Mas eu não quero. Agora vem aqui.




Alissa se aproximou dele ainda com os olhos lacrimejando, Deyv a abraçou e ela sentiu um calor imenso, conseguia sentir levemente aquele abraço, era fraco, mas real. Alissa não tinha certeza se chorava ou sorria, seu coração estava apertado... Não era fácil encarar o fato que Deyv não mais existia. Seu celular tocou, ela se afastou para pega-lo percebendo pelo visor que era uma mensagem de texto:




"Oi amor, como voce esta? Melhorou? Eu quero ver voce... Estou com saudades. Justin."




Ela devolvera o celular para o lugar onde estava e respirou fundo, não conseguira encontrar Justin depois do acontecido, além da tristeza que sentia, ainda tinha que cuidar de Karen. Respirou fungando por causa do choro e olhou para Deyv que a fitava:




- Ele não vai gostar de te ver assim, na verdade ninguém esta gostando.




- E voce quer o que hein espertinho? Que eu coloque um vestido gótico e de uma rave pra galera do rock?!




- Olha, eu não imagino voce em uma rave, muito menos dando uma rave, mas adoraria ver voce em um vestido de gótica!




- Vem cá que raio de fantasma voce é hein?!




- Certamente o melhor tipo deles!




- To começando a discordar! Voce dava menos trabalho vivo!




- Porque voce chorava menos!




- E porque era mesmo? Ah, lembrei, porque voce tava vivo!




- Alissa, deita um pouco, tenta dormir direito ou então quando ver seu namorado amanhã ele vai pensar que o fantasma é voce! Está parecendo uma assombração.




- Não vamos começar a comparar as aparências aqui ta bom?




- Vai por mim, vou te ajudar a dormir.




- Claro, eu vou dormir bem melhor sabendo disso!




- Deixa de ser inexorável e deita logo!




- Espera ai, Alisson Deyv acabou de usar a palavra "inexorável"?




- Algum problema?




- Pelo visto seu vocabulário também melhorou muito né? Sabe pelo menos o que significa isso?




- Do latim inexorabilis Que não cede a rogos nem a lágrimas; que não tem piedade. CRUEL, IMPIEDOSO, IMPLACÁVEL, INSENSÍVEL, Muito rigoroso. DURO, A que não se pode escapar.




- Não sabia que davam aula de portugues no céu.




- E como sabia que eu estava no céu?




- Você era bom demais para estar em outro lugar...




E dizendo isso, Alissa fechou os olhos mergulhando no mais profundo sono, estava fisicamente cansada, psicologicamente exausta e emocionalmente confusa. Naquele momento ela só queria desligar-se da realidade e acreditar que amanhã seria um dia diferente, seria um dia melhor. A claridade entrou pela janela incomodando seus olhos, o copo pesado virou para o lado para olhar a hora no celular, eram onze e meia da manhã. Levantou as pressas e correu para tomar banho, colocou a roupa preta de sempre e calçou os coturnos. Parando um segundo em frente ao espelho ela passou sombra e lápis preto e permaneceu com a boca sem nada. Estava decidida a naquele dia, não deixar ninguém saber como ela se sentia.




Colocou os fones no ouvido e saiu de casa, caminhava a passos levemente rapidos, olhando no relógio viu que não estava tão atrasada e diminuiu o passo, tentando apreciar a música em seus ouvidos, escutava Epica, sua banda de metal favorita, mais especificamente a música "Feint", naquele momento ela lembrava de Deyv, e pensava consigo mesma que procurava apenas um pretexto para fazer isso quando sabia que não era preciso. Mesmo vendo o fantasma do melhor amigo, a morte de Deyv não era um fato aceito por Alissa, e a obsessão pela prisão do homem que o matara era cada vez maior.




- Alissa. - Deyv chamou-a, mas ela não ouviu. - Alissa! - A voz grave e um pouco mais alta fez Alissa despertar de seus pensamentos e levar novamente um susto ao ver o fantasma ao seu lado.




- Que droga Deyv será que não pode pelo menos agir como um fantasma normal e usar um lençol pra avisar que ta chegando?!




- E voce com esse fone tão alto que não escuta nem vozes do além! Quer o que? Ficar surda?!




- O que é veio reclamar do volume do meu fone agora? Que eu me lembre eu não estava chorando!




- Não implicante, eu vim te dar uma informaçãozinha preciosa...




- Qual?




- Eu sei onde o cretino do Allan está;




- Allan? O seu assassino?




- Não, o ator de Holywood! Claro né!




- Desembucha fantasma espirituoso!




- Ele está em uma casa abandonada nas montanhas que ficam perto da casa onde eu morava.




- Aquele desgraçado!




- Avise a polícia o mais depressa possível, ele planeja fugir em dois dias...




- Não posso matar ele?




- Enlouqueceu?! Nem sonhe com isso! Ligue pra polícia e lembre se voce pensar em fazer algo imprudente eu vou estar de olho em voce!




- Vai fazer o que?




- O que for preciso! Agora pare de ser irritante e faça o que eu mandei!




Alissa pegou o celular e ligou para polícia passando a informação de maneira anonima. Ainda aquela tarde ela ficou sabendo que Allan estava preso, por um lado a raiva ainda permanecia dentro de si, por outro estava feliz, uma vez que Dennys sobrevivera poderia acusá-lo formalmente. Mas nem assim a dor de Alissa diminuía, não importava que o desgraçado estivesse preso, ele estava vivo, Deyv não. Cruzando os braços em volta do corpo ela olhou pela janela o sol se pondo enquanto a voz da professora de química passava cada vez mais longe do seu ouvido e da sua mente. Ela apenas sentia aquele vazio enorme no coração um vazio que nada nunca poderia preencher.




- Amor!




Correndo até o namorado, Alissa o abraçou com força caindo novamente em lágrimas, não sabia com certeza se todas de dor ou se havia no meio delas, alguma de alegria pela prisão do infeliz que matara seu melhor amigo. Justin era forte, olhos incrivelmente azuis, os cabelos negros cortados curtos, era um pouco mais alto que Alissa. Apertando um pouco o abraço ele falou suavemente:




- Minha menina... Eu sinto muito... Shh... Vai ficar tudo bem...




Alissa queria acreditar que ficaria tudo bem, que ela conseguiria superar aquilo, dentro dela conviver com a ausência de Deyv seria o maior desafio com o qual teria que lutar, seu coração estava quebrado, ferido profundamente, uma ferida que talvez nem mesmo o tempo fosse capaz de cicatrizar.


Alissa estava deitada, seu coração estava apertado, sentia-se mal. Não conseguia parar de chorar mesmo que tentasse, no fundo ela não queria aceitar que Deyv se fora, não importava o que acontecia nada fazia com que se sentisse melhor, era uma dor aguda que a acompanhava aonde quer que ela fosse, Deyv sabia que encontrar seu assassino seria mais fácil que ajudar Alissa e Karen a seguir em frente, e ele em particular apreciava desafios quando vivo.

Virando o corpo para o lado pela, provavelmente, milésima vez aquela noite Alissa fitou no celular a hora vendo que eram cinco da manhã. Ha dias que não conseguia dormir direito ou não conseguia dormir nada. Fechando os olhos tentou mais uma vez sem sucesso, nesse momento Deyv apareceu sentado ao pé de sua cama:

- Voce vai ficar com olheiras horríveis!

- E desde quando eu me importo com isso?

- Só porque eu morri vai se esquecer de voce agora?

- Voce é um fantasma bem intrometido não acha?

- Alissa, torna as coisas mais fáceis pra mim vai!

- Ah é? E voce tornou as coisas fáceis para mim Allison Deyv?! Voce morreu! Não venha agora tentar me convencer desse papo de "seguir em frente" porque auto ajuda do além não é o seu melhor emprego!

- Caramba voce é mais irritante do que eu pensei sabia?

- Vou encarar isso como um elogio.

- Alissa, escuta só, pensa na Karen, ela precisa de voce pra continuar...

- Jura? O engraçado é que eu também precisava de voce pra ir em frente e voce comprou viagem só pra um! O que ainda ta fazendo aqui? O demonio do Allan ja ta preso, descansa em paz agora!

- Como?! Vendo voce desse jeito? Voce não deixa eu descansar em paz nem no caixão! Meu corpo ta lá se contorcendo.

- Então eu vou desenterrar e levar pro Guinness!

- O que eu posso fazer pra te ajudar?

- Voce não pode viver Deyv... E eu não posso matar o Allan. Parece que nada no mundo pode me ajudar! Voce foi embora cedo demais... Eu não esperava isso, não queria... Não é justo!

- Mas eu estou aqui por voce não estou?

- É, voce é o Gasparzinho e eu a louca que fala com fantasmas!

- Voce precisa parar de agir como uma criança mimada e aprender a aceitar as coisas que não pode controlar!

- Escuta aqui seu fantasma psicanalista, voce me ensinou muita coisa quando estava vivo, me lembro dos ensinamentos sobre metal, sobre pessoas, sobre a vida, sobre os símbolos, sobre os estilos, mas o único que eu não me lembro foi o dia que voce me ensinou a viver sem voce! Da pra refrescar a minha memória nessa lição?

Deyv colocou a mão no rosto olhando pra ela e começou a rir. Alissa o olhava sem entender, mas logo começou a rir também mesmo sem saber do que exatamente estava rindo. Assim que o dia amanheceu e os primeiros raios de sol surgiram no horizonte, Alissa deitou e dormiu sobre o "colo" de Deyv. Por mais que brigassem ela não conseguia deixar ele ir embora Deyv soubesse que mais cedo ou mais tarde ela teria que aprender.

Em parte, depois dessa conversa, Alissa se sentia melhor, acostumara-se com a presença constante de Deyv ao seu lado, as conversas ate o nascer do dia, e até mesmo as intromissões dele quando não devia:

- Amor, está mesmo tudo bem com voce? - Olhando-a desconfiado Justin perguntou enquanto acariciava seu rosto;

- Está sim... - Alissa falou suavemente.

- Não mesmo! - Deyv revidou.

- Fica quieto! - ELa sussurrou;

- COmo? - Justin perguntou.

- Ahn.. Nada não amor... Esquece isso;

- Cara voce acha mesmo que ele é idiota? É só olhar na sua cara que tem um letreiro luminoso escrito "AJUDA". - Deyv falou em tom sarcástico.

- Quer parar com isso?

- Amor, ta falando com quem? - Justin olhava confuso para Alissa.

- Ahn...

Deyv gargalhava, não apenas com Justin, mas também com Karen e as vezes até com os pais dela, Alissa nunca conseguia deixar de responder a uma provocação dele. Em parte ele fazia isso para que ela desejasse não ve-lo mais, o problema é que ela só queria que ele ficasse mais. Os dias passavam com calma e Karen começava a encarar a falta de Deyv de maneira mais forte que Alissa, que conseguia vê-lo. A garota sentia-se desmotivada para tudo, e até mesmo as coisas que gostava de fazer tornaram-se sem graça. Deyv estava ficando preocupado com a situaçao, não tinha muito tempo e o seu trabalho parecia não fazer avanço.

Naquela noite, Karen e Alissa resolveram ver um filme. Ja faziam mais de tres semanas desde a morte de Deyv e mesmo assim nenhuma das duas sentia-se confortável para levar uma vida normal, as vezes até se sentiam mal por estar respirando quando o melhor amigo ja não existia mais. Sentando no sofá com a habitual bacia de pipocas, Alissa deu play no filme e notou a presença de Deyv no outro sofá. Olhando para ele sentiu um certo alívio de tê-lo por perto, mesmo que daquele modo, de certa maneira a presença de Deyv havia tornado as dores um pouco menos difíceis de aguentar, sentir que o melhor amigo não tinha partido de um todo em parte a consolava.

Sorrindo para ela Deyv fez um sinal para que prestasse atenção no filme, ela riu e obedeceu.

- Ta rindo de que? - Karen quis saber.

- Nada não.

- Desde quando voce ficou tão boa mentirosa e obedece as minhas ordens? - Deyv perguntou.

- Prefere quando eu implico com voce?

- Sinceramente não. - Karen respondeu. Deyv começou a rir.

- Cala a boca! - Alissa falou rindo.

- Mas voce que perguntou! - Karen falou sentida.

- Não maninha... Não to falando com voce não...

- E ta falando com quem?

- To... Decorando as falas de uma peça de teatro!

- COmo é?! - Karen falou cética. Deyv gargalhava a certo ponto que balançava as compridas pernas.

- Não to achando nenhuma graça!

- E eu não estou rindo! Para com isso Ali! Ta começando a me assustar!

- Cara voce me diverte demais! - Deyv gargalhava.

- Para de encher!

- Alissa, ficou maluca?! Com quem ta falando?

- Conta pra ela! - Deyv encorajou rindo.

- Eu criei um... Amigo imaginário.

- Essa é velha viu! - Deyv falou sarcástico.

- Um amigo imaginário? Eu por acaso tenho cara de idiota?

- Falei que era velha!

- Eu não disse isso Karen... É que... Ah eu só curto essas coisas.

- Certo... Eu vou dormir ta? Da boa noite pro seu "amigo imaginário"!

Ela falou fazendo o sinal das aspas com os dedos enquanto se levantava para ir para o quarto. Deyv olhou para Alissa ainda rindo, mas dessa vez mais calmo.

- Sinceramente, voce me tira do sério!

- Foi bom, temos que conversar Alissa...

- Ah então voce queria um papo cabeça? Porque não disse logo? Eu teria saído sem precisar passar por louca!

- Eu tenho que ir embora...

Os olhos de Alissa fitaram Deyv cheios de água, seu coração voltou a sentir violentamente a dor da perda. Não conseguiria continuar sem ele... E nesse momento ela se perguntava o que fazer.


Alissa fitava Deyv com os olhos cheios de água, seu corpo parecia derreter como nos desenhos animados, seu coração apertou de tal forma que parecia que ela ia enfartar. Deyv sabia que era necessário, por mais que doesse naquele momento ela precisava aprender a seguir em frente, como Karen também deveria fazer, ele não poderia ficar com ela para sempre, era hora de cada um cumprir seu destino. As lágrimas percorriam o rosto de Alissa que perguntou com a voz trêmula:

- C-Como assim... Indo embora?

- Alissa... O motivo de eu ter ficado aqui, de eu ter vindo, foi te ajudar a seguir sem mim, de uma maneira que voce me sentisse sempre ao seu lado, eu não posso ficar aqui, não é mais o meu lugar... Voce tem que se acostumar com a idéia...

- Mas... Eu não quero que voce vá embora...

Deyv se levantou e sentou ao lado dela abraçando-a com carinho, dessa vez Alissa sentiu a presença dele como se estivesse totalmente vivo, os braços de Deyv a envolviam em um abraço cheio de carinho, de calma e de luz.

- E quem disse que eu vou embora? Alissa, eu nunca vou deixar voce, sempre estarei ao seu lado enquanto voce lembrar de mim, eu vou ficar no seu coração para sempre, e vou cuidar de voce junto do seu anjo da guarda, afinal ele costuma passear muito enquanto voce dorme, alguém tem que ficar de olho pra voce não sair andando por ai!

- Engraçadinho! - As lágrimas percorriam o rosto de Alissa sem pausa.

- Olha, voce e a Karen sempre foram especiais pra mim, e tudo que vivemos juntos nunca vai sair da minha memória nem da memória de voces, lembre desses momentos e sorria, porque eu adorava o seu sorriso. Cante, escreva, faça as coisas que gostava de fazer e ajude a Karen a se recuperar também... Eu posso não estar com voces de corpo, mas estou vivo no coração de voces...

- Eu não consigo deixar voce ir... Fica comigo... Só mais um tempinho...

- Ali... Voce é mais forte do que pensa... Eu sei que crescer dói um pouquinho, mas eu faço isso porque sou seu amigo, porque quero o seu bem... Voce vai ser muito feliz, o Justin é um cara incrível e vai ser um ótimo companheiro pra voce... E a minha filhinha vai precisar que alguem ensine a ela os bons costumes! Estou contando com voce e a Karen pra isso...

Alissa conseguiu dar um sorriso em meio as lágrimas e responder com a voz um pouco chorosa:

- Pode deixar com a gente...

- Assim que eu gosto... Sorrindo e com força.

- Eu vou sentir sua falta...

- Eu sempre estarei com voce... Em todos os momentos, quando a saudade apertar demais, pense em mim com força e escute um gutural massa pra ouvir!

Alissa deu um leve riso, respirando fundo. Deyv deu um beijo em sua testa e levantou, aos poucos desaparecendo com um sorriso terno nos lábios, a luz o consumia diante dos olhos chorosos de Alissa, até que por fim ele desapareceu completamente. ELa continuou ali, encolhendo-se sobre o sofá, sentindo o coração doer a cada batida, acostumara-se com a presença de Deyv constantemente em sua vida, e agora ele havia ido para sempre, outra vez.

Os dias passavam calmos para Alissa e Karen que tentavam levar a vida de um jeito o mais normal possível, embora soubessem que suas vidas nunca mais seriam as mesmas, o luto permanecia, não apenas nas roupas, mas principalmente em seus corações. Dois meses após a partida de Deyv as duas voltaram a praça onde costumavam se encontrar, olhando tudo em volta cheio de recordações e momentos felizes, elas não conseguiram conter as lágrimas, o céu cinzento não tinha mais o brilho daqueles dias de alegria, caminhando juntas pelas ruas elas percebiam que a cidade, de repente parecia vazia e sem graça, e contemplando o céu nublado elas seguiram em frente, não com a mesma alegria de sempre, mas com a certeza de aprender a conviver com a saudade... E ali permaneceram por um tempo esperando que Deyv do céu as estivesse olhando e sentindo aquela saudade que permanecia em seus corações.

FIM.




Infelizmente eu ainda não consegui deixar você ir embora David... Falar de você, lembrar dos momentos que compartilhamos ou até mesmo ver uma foto sua ainda me causa lágrimas... Dizer Adeus é uma coisa que eu acho que nunca vou conseguir fazer, conviver com essa saudade que voce causou em nós é ainda mais difícil do que eu consegui imaginar que seria, porque no fundo eu nunca imaginei que ia precisar te dizer Adeus, eu não escolhi isso do mesmo modo que você não escolheu ir... No fundo, acho que eu não quero aceitar que nunca mais vou ouvir a sua voz, ver a sua risada maluca, aguentar a sua chatice e as provocações, te irritar por ter cortado o cabelo ou mesmo perguntar algo sobre o metal... Não quero acreditar que nunca mais vou poder ver seu andar esquisito ou ficar com dor no pescoço por você ser mais alto que eu... Não é fácil deixar ir alguém como você... Que não fez apenas parte da minha vida, mas que tinha um papel importante nela, eu e Karynny não fomos apenas especiais pra você, você foi especial pra gente também, era nosso irmão mais velho, nosso melhor amigo, a pessoa mais incrível que nós ja conhecemos... A sua falta vai doer pra sempre, e mesmo que a gente aprenda a viver com ela, vai ser uma ferida no nosso coração que nunca vai cicatrizar...

Katharynny.

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