Ano: 2022
Gênero: Drama
Sinopse: Ludovico é um jovem imigrante alemão que fugiu do pai violento e veio construir uma vida nova no Brasil do Séc. XIX.
Décadas mais tarde, Maurício é um professor de literatura que tem sua vida virada de cabeça para baixo após um assalto. Tímido e sistemático, ele está a envelhecer sozinho no antigo casarão da família, sem dar ouvidos aos amigos que tentam resgatá-lo da melancolia.
Enquanto isso, o porão daquela casa esconde um segredo que mexerá com a vida de todos. E um garoto ruivo, nascido sem família e sem chance alguma na vida, receberá um legado inesperado do qual não conseguirá fugir.
O que essas três histórias têm em comum? E como elas vão se entrelaçar?
Entre neste Claustro e veja com seus próprios olhos.
A história acompanha quatro gerações de uma família entre os anos 1800 e 1900, as reviravoltas, destinos marcados pelas mudanças históricas e de coração iniciando com o patriarca Ludovico vindo da Alemanha para o Brasil em meados de 1800 fugindo de um destino imposto pelo rigido pai militar. Passando por seu filho Lauro que se apaixonou por uma negra cuja liberdade ele comprou, e se viu vítima do mesmo destino que o pai de Ludovico lhe impôs anos antes. De Lauro seu legado segue para seu filho, Pedro que ao contrário dos outros dois não foi um bom administrador dos bens da família e por fim, caindo em Maurício cujo destino trágico é onde inicia a história. Acompanhando tramas secundárias que se interligam à ramificação da família germano-brasileira, cada um com seus dilemas e traumas próprios, elas tornam a trama do romance ainda mais complexa e rica criando uma teia de acontecimentos que se interligam em um desfecho inesperado.
Peguei esse livro no kindle ano passado e estava curiosa sobre ele por ver a indicação de uma professora de storytelling que sigo no instagram. De início eu pensei que ia ler um romance super complexo daqueles no melhor estilo Isabel Allende e foi mais ou menos o que eu encontrei mesmo, embora não fosse o romance romântico que eu estava esperando. A teia costurada pela autora se assemelha bastante com a prosa de Allende e de Garcia Marquez embora, deste último, eu tenha notado apenas a elegância estilística e não a complicação desnecessária de fatos que vi em Cem Anos de Solidão (que, inclusive, ainda não consegui terminar por falta de paciência).
A maneira como temos acesso ao plano de fundo dos personagens envolvidos, conhecemos suas histórias e o que culminou no seu estado atual durante a narrativa desperta, ao mesmo tempo, a empatia e a revolta porque suas histórias não são meramente ficcionais, mas muito reais. Dolorosamente reais, eu diria. A maneira como o Brasil do século XIX é retratado tem uma fidelidade louvável, são histórias que saltam das páginas e nos convidam a uma viagem no tempo. Quero acreditar que no meio dos horrores da escravidão pela qual o Brasil, um dos últimos países a abolir, passou existiu um Ludovico e um Lauro que viam seres humanos e não peças.
Fiquei triste pelo rumo trágico da vida de Maurício e que ironia o seu desfecho. A gente acaba refletindo sobre como a vida é breve e não adianta perder tempo ajuntando tanto se vamos embora sem nada além de terra na cara. O legado de Ludovico acabou quase desaparecendo não fosse pelos negros que tinham carinho por ele, seu nome teria desaparecido e permanecido apenas na mente daquele indigente cheio de culpa que deu uma guinada no próprio destino. A história é realista, bem amarrada e imersiva. Gostei bastante e mesmo não tendo sido nada do que eu estava esperando me surpreendeu de um jeito bom, apesar do final quase agridoce. Não acho, contudo, que é um romance para qualquer pessoa. No meio de um mundo de livros de entretenimento, esse aqui tem alma particular que só vai agradar leitores com sensibilidade aguçada e fãs de tramas inteligentes.
Recomendo muito. Foi um dos melhores nacionais que eu já li. Como os movimentos de uma sinfonia tal e qual são divididos seus capítulos, ele se descortina para nós com suavidade, força e a pura arte da vida.

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