domingo, 12 de junho de 2016

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

Informações:

Título Original: Преступле́ние и наказа́ние (Prestuplênie i nakazánie)
Ano de Publicação: 1866
Série: -
País de Origem: Rússia
Gênero: Suspense, policial, psicológico, romance
Páginas: 561

Sinopse: Um dos maiores romances de todos os tempos, narra a história do estudante Raskólnikov, que, vendo-se na miséria, assassina uma velha usurária e não consegue livrar-se do peso do remorso. Obra da maturidade de Dostoiévski, pela primeira vez traduzida no Brasil diretamente do original russo. 

Acho que todo mundo, alguma vez na vida, já disse que queria ler Crime e Castigo, fosse porque havia ouvido falar da história em algum lugar, fosse porque pessoas que leram relataram quão interessante é o enredo. Eu tomei conhecimento do livro muitos anos antes pelo filme A casa do lago, tentei ler em uma biblioteca, mas não consegui, na época, me inteirar do enredo complexo e dos nomes (que são quase palavrões). Só agora, já um pouco mais "lida" eu peguei emprestado com um amigo e me empenhei a me aventurar na mente insana dos personagens de Dostoiévski. Por falar nisso, peço desculpas por estar tão ausente do blog ultimamente, mas vou dar um jeito - agora que estou praticamente livre da faculdade - de organizar e otimizar o meu tempo. Mas, voltando ao livro, acompanhamos a história de Rodion Ramanítch Raskólnikov, o que por si só já vale o livro todo! Ele é um estudante de direito falido que perambula pelas ruas de Petersburgo a meditar sobre fazer ou não aquilo, que se classifica, como percebemos mais tarde, em um crime. Enquanto divaga sobre a possibilidade e se é ou não apto a fazer ele se vê as voltas com a carta da mãe na qual relata-se do noivado de sua irmã mais nova, Avdótia (vou me deter a usar os nomes de forma fácil, porque são muitos e muito ruins de escrever), após um escandaloso incidente envolvendo um homem inescrupuloso. Ao perceber que a irmã estava se sacrificando em nome da vida confortável e da sua ascensão como advogado, Rodion fica indignado e promete a si mesmo fazer o possível para que aquele casamento seja cancelado.
Diante disso, os debates mentais acerca do crime começam a intensificar-se e ele começa a tecer uma cadeia de justificativas e teorias que apoiam que o que ele cometerá e, não menos, que um bem à cidade e um ato em nome do poder de razão e supremacia de alguns seres humanos tidos por ele como extraordinários, cujos atos não podem ser considerados criminosos ou, sequer, repreendidos pela sociedade. A vítima em questão é Aliena Ivanovna, uma velha mulher viúva que penhora coisas de pessoas a juros altíssimos e tem uma péssima fama na cidade não apenas por ser em certos modos desonesta com seus clientes, como por maltratar sua meio irmã Lisavieta a quem todos tratam com carinho. Dessa forma, convencido que está correto em "riscar a velha do mapa" e, dessa forma, conseguir estabilidade financeira a partir disso, ele comete o ato deliberadamente e de uma forma que, apesar de bem calculada, acaba por ser um pouco sem jeito.
Eu aqui querendo me meter numa coisa dessas e com medo de bobagens! - pensou ele, com um sorriso estranho. - Hum... é... tudo está ao alcance do homem e ele deixa isso tudo escapar só por medo... é mesmo um axioma. Curioso: o que será que as pessoas mais temem... Pensando bem, eu ando falando pelos cotovelos. É por não fazer nada que falo pelos cotovelos. Ou pode ser assim também: eu falo pelos cotovelos porque não faço nada. (DOSTOIÉVSKI, p. 19)
Já no primeiro capítulo temos uma prévia de como está a mente de Rodion, os primeiros sinais de desequilíbrio que surgem do seu brilhantismo. Segue-se o ato a uma espécie de torpor psicológico de uma doença que nem Rodion nem as pessoas próximas conseguem identificar a causa, o fato é que ele se torna mentalmente instável depois de cometer o crime e se vê às voltas com a paranoia de não ser pego e de que todos o perseguem. No entanto, em nenhum momento ele se mostra arrependido realmente do que fez. A esse fato, entrelaçam-se outras histórias, a Catierina, uma mulher com câncer que é casada com um bêbado que Rodion acaba conhecendo em um bar e cuja filha tornou-se prostituta apenas para colocar dinheiro nas mãos da esposa do pai. Entra também em cena, Dimitri Razulmikim, amigo de universidade de Rodion que se torna seu principal auxílio permanecendo ao lado dele mesmo apesar de todo o mau gênio e loucura dele. A irmã e mãe de Rodion também aparecem na cidade, tomando parte na trama ainda que de maneira meio secundária, com elas entra em cena Lujin, um homem narcisista e machista que era, até então, noivo de Avdótia, irmã de Rodion, mas que quebra o enlace após testar a verdadeira natureza do homem. E, por fim, como personagens significantes, temos Sófia, filha do bêbado, que virou prostituta, mas que vem a ser a "salvação" de Rodion e Porfiri, um juiz que apesar de todas as reviravoltas no caso acaba conseguindo encurralar Rodion de maneira brilhante.
O livro pode ser descrito como uma constante batalha entre razão e loucura, de fato é um clássico da literatura e creio que um dos principais fatores esteja na complexidade do enredo, o que eu falei aí foi um resumo beeeem enxuto do que rola. É um livro para pessoas realmente atentas, precisa de um pouco de loucura e de psicologia para entender como a mente de Rodion funciona, e confesso que muitas das coisas que ele pensava me levavam a concordar, como na citação anterior. Apesar de seu estado de desequilíbrio, a personagem é idealista, tem princípios e caráter e enquanto caminhamos pelos motivos que o levaram aquele extremo percebemos a tênue linha que separa sua concepção de merecimento e do poder superior daqueles tidos por ele como extraordinários, ainda mais baseado em personagens históricas como César e Napoleão. Se eu tivesse lido este livro dez anos antes teria odiado pelo simples fato de ser incapaz de compreender a sua profundidade e a carga filosófica que ele carrega.
O livro é interessantíssimo pelas reflexões que propõe, pelos seus diálogos e acontecimentos frenéticos que acompanham bem a loucura de Rodion, pela crueldade real da sociedade Russa que é expressa tão perfeitamente na nossa própria, apesar da carga de loucura, Rodion causa uma empatia, não há como não torcer por ele e mesmo apesar de o final do livro não ter nos deixado certezas, mas apenas hipóteses, é uma leitura desafiadora e instigante. Valeu a pena esperar. Li por recomendação a edição da editora 34 direto do Russo para o Português, achei a leitura boa, sem muitas palavras esdrúxulas e as notas de rodapé são excelentes para conhecer um pouco mais da cultura Russa. 
O romance russo é dividido em 6 partes e esta edição tem um epílogo, não sei quanto as outras.  

Quotes:
O que lhe respondeu em Moscou seu professor de história universal quando lhe perguntaram por que falsificava papel moeda? 'Todos estão enriquecendo de várias maneiras, então eu também quis enriquecer o quanto antes.' Não me lembro das palavras exatas, mas o sentido foi o de enriquecer o quanto antes, à custa dos outros, sem esforço! Acostumaram-se a viver recebendo tudo pronto, a caminhar levados por mãos alheias, a comer já mastigado. Bem, chegou o grande momento em que cada um se apresenta com a cara que tem. (Fala de Raskólnikov p. 164/165)
Não sei porque, mas aquém dessa lavagem de dinheiro, me identifiquei nessa parte. Ser superprotegido tem consequencias realmente ruins.
Tu não acreditas, tu nem sequer podes imaginar, Pólienka - dizia ela andando pelo quarto -, o quanto era alegre e esplêndida a nossa vida na casa do meu pai e como esse bêbado arruinou a mim e vai arruinar vocês todos! Papai era coronel no serviço público e já quase chegando a governador; só lhe faltava dar mais um passo qualquer, de sorte que todo mundo ia visitá-lo e dizia 'nós já o consideramos nosso governador, Ivan Mikháilitch'. Quando eu...khe! Quando eu...khe-khe-khe... ô vida trimaldita! - gritou ela, escarrando e agarrando-se ao peito. - Quando eu... ah, quando no último baile... na casa do chefe... a princesinha Biezzemiélnaia - a que depois me abençoou quando eu estava casando com o teu pai, Pólia - me viu de xale do baile de formatura? (Catierina p. 190)
Nesse trecho, quando Catierina se lamenta da sua vida miserável, eu me recordei muito do romance Mansfield Park de Jane Austen, no qual a mãe de Fanni, protagonista, conta-lhe que casou-se por amor e por essa razão vivia aquela vida de privações e miséria. O caso se aplica bem a esse caso de Catierina Ivanovna. Ao que parecia, o casamento arranjado era de um ponto comum em todos os países da antiguidade.
ATENÇÃO, SE VOCÊ NÃO QUISER SABER QUAL CRIME RODION COMETEU, ESSES PRÓXIMOS QUOTES PODEM CONTER UM SPOILERS.
A velhusca foi um absurdo! - pensava com ardor e ímpeto -, a velha vai ver que foi mesmo um erro, mas não é nela que está a questão! A velha foi apenas uma doença... eu queria ultrapassar o limite o quanto antes... eu não matei uma pessoa, eu matei um princípio. (...) Ora veja, eu sou um piolho estético, nada mais - acrescentou súbito, desatando a rir feito um demente. - Sim, eu sou realmente um piolho - continuou ele, agarrando-se com maldade a esse pensamento, escarafunchando nele, brincando e distraindo-se com ele - e já unicamente porque, em primeiro lugar neste momento raciocino sobre o fato de que sou um piolho; porque, em segundo lugar, passei o mês inteiro incomodando a providência em sua excelsa bondade, apelando para que testemunhasse que eu não estaria fazendo aquilo com vistas a vantagens materiais, mas a um objetivo magnífico e agradável - eh-eh! Porque, em terceiro lugar, decidi tomar dele exatamente tanto quanto me era  necessário para o primeiro passo, não mais nem menos (e o restante, portanto, que fosse para os mosteiros, por testamento espiritual - he-he!)... Porque, porque eu sou definitivamente um piolho - acrescentou rangendo os dentes -, porque eu mesmo, é possível, sou ainda pior e mais torpe que o piolho morto, e pressenti de antemão que viria a dizer isso a mim mesmo depois que a matasse! (Raskolnikov p. 284/285)
 Aqui, Rodion entra meio que em um conflito interno, mas apesar de tudo ele não se considera um criminoso, em sua mente, o que ele fez não pode ser punido ou repreendido, foi um bem. Ainda assim, ele se reconhece errado e se chama de piolho por ter falhado em sua teoria de considerar-se uma das pessoas extraordinárias justamente por seu estado após o fato.

- Eu sou um piolho como todos, ou um homem? Eu  posso ultrapassar ou não! Eu ouso inclinar-me a tomar ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de... "-Matar? Tem o direito de matar? - Sonia Ergueu os braços."  - Ora, ora, Sonia! - ele soltou um grito irritado, quis objetar alguma coisa, mas calou desdenhosamente. - Não me interrompas, Sonia! Eu só quis demonstrar uma coisa: que naquela ocasião o diabo me arrastou, mas já depois me explicou que eu não tinha o direito de ir lá porque eu sou um piolho exatamente como todos os outros! Ele zombou de mim, e aí eu vim para o teu lado agora! (Diálogo entre Sófia e Raskolnikov, p. 428)
 Como se afirma na citação anterior, aqui prova-se que o único arrependimento de Rodion é perceber que, ao contrário de sua teoria, ele não se encaixava no perfil dos homens extraordinários que, ao seu ponto de vista, tinham sim o direito de decidir quem vivia e quem não, por serem mais esclarecidos.
Bem, o sofrimento também é uma coisa boa. Assuma o sofrimento. Mikolka talvez esteja certo ao desejar sofrer. Sei que não acredita - mas o senhor pare com esse jeito finório de filosofar; entregue-se à vida de forma direta, sem discutir, sem se inquietar - será levado para a margem e colocado de pé. (Porfiri à Rodion, p. 469)
Essa eu só achei interessante. É uma verdade.
- Meu irmão, que coisa estás dizendo? Ora, tu derramaste sangue! - Gritou Dunia em desespero." - Que não param de derramar - emendou quase caindo em fúria -, que continuam derramando e sempre derramaram no mundo como uma cascata, que derramam como champanhe, pelo qual coroam o capitólio e depois chamam o coroado de benfeitor da humanidade. (Avdotia e Rodion, p. 526)
Tapa na cara da sociedade de hoje. Prova que o mundo é uma bosta desde sempre.

- Será que tu, ao assumires o sofrimento, já não pagas metade do teu crime? - gritava ela, apertando-o em seus braços e beijando-o." - Crime? Que crime? - gritou ele subitamente, caindo em repentina fúria. - O fato de eu ter matado um piolho nojento, nocivo, uma velhota usurária, que não faz falta a ninguém? Quem mata esse ladrão tem cem anos de perdão! Que sugava a seiva dos pobres, isso lá é crime? Não penso nele nem em apagá-lo. E que história é essa de ficarem me apontando de todos os lados: "Crime, crime!". Só agora vejo com clareza todo o absurdo da pusilanimidade, agora que me resolvi a assumir essa desnecessária vergonha! Avdótia e Rodion, p. 524)

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