segunda-feira, 31 de agosto de 2026

[Livro] A Inconveniente Loja de Conveniência

 Original: 불편한 편의점

Ano: 2023

Autor:  Kim Ho-yeon

Gênero: Ficção

Sinopse: Dok-go mora na Estação Seul e passa seus dias olhando para a mesma loja de conveniência. Ele não tem lembranças do seu passado, mas sabe que daria tudo para beber uma dose de soju. Quando acha uma bolsinha com documentos e uma carteira, ele não faz a menor ideia de que sua vida está prestes a mudar. A senhora Yeom, uma professora de história aposentada, perdeu sua bolsinha na estação. Mas graças ao bom Deus que sempre a protege, assim que deu falta dos seus pertences, recebeu uma ligação de um telefone público informando que tinham sido encontrados. Ela fica tão grata que resolve levar Dok-go até sua loja de conveniência para lhe dar de comer. Ao ver a felicidade estampada em seu rosto, ela diz que ele pode passar lá todo dia e pegar uma marmita. Por uma reviravolva do destino, Dok-go acaba salvando a loja de um assalto. E, mesmo que os funcionários não confiem tanto assim nele, a senhora Yeom oferece ao homem com aparência de urso a vaga do turno da noite. Aos poucos, Dok-go surpreende a todos e cativa as pessoas ao seu redor. O problema é que o filho imprestável da senhora Yeom tem outros planos para o lugar. Ele quer vender a loja e, nesse ínterim, contrata um detetive para descobrir o que Dok-go vem tentando a todo custo esquecer. 

 

Já no trem, a Senhora Yeom descobre que sua bolsinha com dinheiro e documentos não está na bolsa. Não importa o quanto tente se lembrar, ela não sabe onde pode tê-la perdido. Então seu celular toca e ela recebe a notícia de que um homem a encontrou, ele pede uma confirmação de que ela é realmente a dona do objeto e diz que ficará na estação de Seul esperando para devolver. Pouco tempo depois ele liga de novo perguntando se pode comprar uma marmita em uma loja de conveniência perto da estação, a Senhora Yeom autoriza.

Quando ela chega ao destino, encontra o homem sendo espancado por três outros moradores de rua enquanto protege com todas as forças a sua bolsinha de dinheiro. Ela espanta os sujeitos e quando se aproxima, ele devolve o pertence dela, lamentando sua refeição perdida. A senhora Yeom o leva até sua própria loja de conveniência e lhe oferece uma marmita dizendo que ele pode ir até lá sempre que estiver com fome. Ela pergunta o nome dele, mas ele diz que não sabe, fala que ela pode chamá-lo de Dok-go.

A loja de conveniência da senhora Yeom tem três funcionários, Shi-hyeon que trabalha no turno da manhã, a senhora Oh que trabalha no turno da tarde e Seong-pil no turno da noite. Shi-hyeon está estudando para um concurso público e a Senhora Yeom espera que em breve ela possa deixar a loja por um emprego realmente melhor.  Seong-pil informa que vai precisar pedir demissão, a senhora Yeom sabe que o turno da noite é o mais difícil de conseguir funcionário e embora esteja feliz que o funcionário conseguiu algo melhor, já prevê o problema de conseguir alguém para substituí-lo.

 Sem alternativa, ela assume o posto noturno até encontrar alguém. Em uma noite, um grupo de adolescentes problemáticos entra na loja e começa a causar confusão, é nesse momento que Dok-go aparece e resolve a situação por ela, já tendo chamado a polícia quando viu de longe tudo acontecendo.  Então a senhora Yeom tem a ideia de fazer daquele morador de rua seu funcionário, ele teria um lugar para passar a noite no inverno frio, comida e receberia um salário. Em troca disso ele além de trabalhar precisaria parar de beber. E Dok-go aceita.

Assim começa a jornada de Dok-go na loja de conveniência, ele começa a lidar com os funcionários, que têm certo preconceito contra ele, e com os diversos clientes. Mas seu jeito único começa a mudar vidas sem que ele faça mais esforço do que ouvir e tentar entender. Enquanto reconstrói as vidas à sua volta, lentamente Dok-go vai se redescobrindo e reencontrando.

Esse livro quase segue a vibe da ficção de cura de outros que já resenhei, mas a diferença é que a história centra mais no próprio Dok-go cujo nome verdadeiro não descobrimos, apesar de, no final do livro, descobrirmos que ele já recuperou a memória. Do sei jeito, às vezes até sem perceber, ele dá norte para a vida das pessoas quando não consegue nem dar rumo na própria história. Ele deu um ideia que mudou a vida de Shi-hyeon, ajudou a senhora Oh com o filho, colocou os clientes impertinentes no seu lugar, fez uma autora travada voltar a escrever e deu esperança a um pai de família sem rumo. O grande mistério do livro é descobrirmos o passado dele, algo que acontece em partes no último capítulo, talvez por ter continuação a gente tem um final aberto, ainda assim, é impossível não se emocionar com o jeito tocante com que Dok-go interfere em situações.

A figura dele também me levantou uma reflexão profunda sobre uma habilidade que, com o tempo e o avanço da tecnologia, a maioria das pessoas está perdendo: a habilidade de escutar. Todo mundo está ocupado demais com os próprios problemas, com o tempo que nunca é suficiente, com as telas, para conseguir escutar de verdade um amigo que precisa, uma pessoa passando por um momento difícil, nunca se falou tanto sobre saúde mental e se compreendeu tão pouco sobre o assunto. Na maioria das vezes uma visão de fora é capaz de mudar todo um roteiro negativo que a mente de alguém já criou. Dok-go é bom em ler pessoas porque ele presta atenção, hoje a nossa atenção está sempre presa. Gostei muito desse livro, é uma mensagem sobre segundas chances, sobre aprender com os erros e sobre nunca parar de tentar não importa quão difícil seja a situação. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

[Livro] Presença de Anita

 Autor: Mario Donato

Ano:  1948

Gênero: Perversão

Sinopse:  Neste livro é narrada a história de um pacto de morte entre dois amantes - Anita, uma ninfeta de 17 anos, linda e sardônica, despertando para os prazeres do sexo, e Eduardo, um quarentão, casado, pai de dois filhos.

 

Na primeira parte do livro a gente já tem o Eduardo e a Anita juntos no sótão onde ela mora e ela está instigando ele a seguir com o plano que os dois tinham discutido antes sobre a ideia do Eduardo de morrerem juntos. Ele parece relutar, ela começa a dizer que ele não a ama de verdade e começa a fazer birra, os dois acabam fazendo sexo e ela pede que ele a mate. O Eduardo manda ela se vestir e depois atira no peito da Anita e então na própria cabeça. Isso nem é spoiler, já tá no começo do livro. A trama então volta para o passado, logo quando Anita se mudou para aquele sótão e antes do Eduardo a conhecer. Ele costumava comprar cigarros em uma venda que ficava perto do sótão onde ela morava e é assim que ele descobre que o lugar foi alugado por uma jovem pintora. Leva um tempo até eles finalmente se verem, de início só de longe, e mais alguns dias até se falarem pela primeira vez.

Anita não se faz de rogada e já convida ele pra sua casa. Ele descobre que ela não é pintora, na verdade não faz nada, e em nenhum momento se diz como Anita consegue sobreviver pagando aluguel. Eles começam a se conhecer e então a Anita acaba se tornando amante do Eduardo. Desde o início ele diz a ela que é casado e tem dois filhos, ela não parece gostar muito da notícia, mas tampouco reluta em se tornar amante dele. A história vai e volta no tempo de modo bem confuso e é difícil separar as linhas temporais com o que é devaneio do Eduardo e o que é a linha do tempo da história dele com a Anita. A coisa é que, na adolescência, o Eduardo desenhou uma mulher, mocinha, com um corpo voluptuoso do jeito que ele queria e deu a esse desenho o nome de Cíntia. Ele sempre ficou obcecado com essa persona que a Cíntia representava e com o início do relacionamento dele com a Anita, ele começou a projetar essa ideia dele nela.

 Nessa primeira parte do livro em nenhum momento se menciona a idade que a Anita tem, mas pelo comportamento dela, suas atitudes, fica evidente que não se trata de uma mulher adulta. Eduardo então descobre uma pintura que ela mantinha escondida na última gaveta da cômoda do quarto e a interroga a respeito do pintor. De início ela não conta nada por mais que ele insista e isso acaba causando algumas discussões entre eles, muito tempo depois ela finalmente conta que conheceu aquele pintor quando tinha quatorze anos. A Anita vem de uma família desestruturada, o pai abandonou a esposa por outra mulher e tinha problemas com álcool, a mãe não se importava com a filha (isso na versão dela, claro) e vivia batendo nela por qualquer coisa. E de início Anita começa uma "amizade" muito estranha com esse pintor que a convence a ser pintada nua por ele.

Ele viaja e passa um ano fora, quando volta, Anita tem quase quinze anos dá a entender que ele chega poucas semanas antes disso. E agora a Anita já tem certo "conhecimento" sobre intimidade, é uma adolescente descobrindo o próprio corpo e quer a ajuda do pintor nessa descoberta. O homem tem cinquenta anos. Ele recusa terminantemente todas as investidas dela até que um dia ele finalmente cede e a estupra. Ela não conta o que acontece depois disso, a história termina aí. Depois tem o episódio que a Anita diz que tá grávida e o Eduardo não quer nem pensar nisso, arruma um médico e manda ela abortar. No começo ela diz que não quer, ele fica com raiva e vai viajar depois de deixar claro que é pra ela se livrar do "problema". Ela viaja atrás dele e diz que vai ter o bebê e depois vai embora com ele, o Eduardo não acredita e mesmo sem gostar daquela ideia sabe que não tem o que fazer, mas a Anita acaba dizendo que não tem gravidez nenhuma e depois tem um acesso de choro que o Eduardo não liga porque tá aliviado demais.

A Anita passa a ser cada vez mais obsessiva e possessiva com o Eduardo chegando a escrever uma carta para a esposa dele mandando que ela o deixe. A essa altura a esposa do Eduardo, Lúcia, já sabia que o marido estava tendo um caso, mas aceitou por causa dos filhos apenas começou a recusá-lo e tratá-lo como um estranho (e ele ainda tem a cara de pau de ficar com raiva dela!), ele inclusive chega a perguntar se ele quer o divórcio e ela diz que só não aceita pelos filhos, mas pede que ele guarde a sujeira dele direito. Com isso o Eduardo fica irritado e não volta a ver a Anita por um tempo e ela insiste em ligar e em procurar por ele, mas ele não cede. A essa altura a Lúcia tá cuidando da casa e dos filhos sozinha porque o Eduardo simplesmente não ajuda mais em nada, o casamento deles nem existe mais porque eles mal se falam e é nesse impasse que termina a primeira parte da história e a essa altura tudo que a gente quer é abandonar esse circo de horrores.

Dando sequência (porque eu sou brasileira e não desisto) a segunda parte do livro começa com Eduardo sobrevivendo ao tiro. Ele acorda após um mês em coma e a situação dele, como explica o médico, não é boa. De início tudo é muito turvo, ele ainda está se readaptando à realidade, mas uma coisa fica muito clara: o alívio de ter sobrevivido. No fim das contas, ele não queria morrer, mas era fato que agora era um assassino, havia matado Anita. Um advogado o procura dizendo que a polícia está atrás dele pelo assassinato de Anita, mas que será muito fácil provar que foi um duplo suicídio, tudo que Eduardo precisará fazer é colocar a culpa na falecida como idealizadora do fato e afirmar que ela atirou em si mesma. Eduardo, ainda grogue, está consciente de que aquilo é mentira, ele atirou em Anita, mas sabe que se falar a verdade será preso e condenado a muitos anos de prisão.

Assim, ele começa a sustentar a história criada pelo advogado e passa a trabalhar na sua absolvição independente da culpa que carrega por estar maculando a imagem de Anita (não que ela fosse uma santa). Quando volta para casa, a família toda da esposa dele se reúne para celebrar sua recuperação (o cara é um traidor, mentiroso, infiel, assassino e covarde, mas pra eles é um heroi sobrevivente!) e essa cena é tão nojenta quanto todo o livro, eles tratam Eduardo como o heroi romântico que sobreviveu a um teste de amor, inclusive, uma das cunhadas dele que sempre o odiou com todas as forças, Diana, declara na descarada que agora ele é o heroi dela, o Romeu renascido dos seus sonhos. E isso dá a entender que ela tem uns vinte anos a menos que ele. A coisa é que o Donato é um cretino esperto, ele nunca revela de verdade a idade dos personagens, a gente não sabe qual a idade real de Anita além da parte dela com o pintor que ela tinha quatorze anos, mas não se sabe quanto tempo se passou entre esse tempo e a mudança dela para o sótão. Eduardo, por outro lado, em algum momento menciona que fará quarenta anos dali alguns anos, isso na terceira parte da história, mas na primeira ele sempre assume que é muito mais velho que Anita.

O julgamento de Eduardo começa. O advogado faz todo um complô para pôr o cliente de vítima, chegando a solicitar que a família viaje para não comparecer ao julgamento e que Lúcia dê entrada no divórcio. Só que assim, o comportamento de Lúcia... eu nem tenho palavras para descrever. Eu realmente não sei o que tem na cabeça dessa mulher. Na verdade todo mundo nesse livro precisava mesmo era de uma terapia braba e um bom psiquiatra. Depois de tudo que ele fez e ela sabe cada coisa, a mulher defende o marido como se fosse o homem mais íntegro do mundo. Esse livro se passa ali nos anos 40 pelo que dá a entender, mas eu apenas não consigo engolir a postura dessa mulher, ou é a explicitação da visão machista desse autor infeliz, ou ela tem sérios problemas de autoestima. Não é possível. Mas okay, a família concorda, Lúcia quase aos prantos, só que Diana que, digo mais, tinha um noivo na época, não está muito disposta a cumprir as exigências. Ela enfiou na cabeça que quer o cunhado e ela vai ter o cunhado.

Na noite antes do julgamento, a menina simplesmente vai para o  hotel onde Eduardo estava hospedado e dá em cima dele na cara dura. Ele tenta resistir a ela, diz que aquilo é um absurdo, só um capricho dela, mas a menina tá completamente maluca e "estupra" o cunhado, eu não sei se essa é a expressão correta, mas vamos colocar assim porque ele não participou muito ativamente do coito. Ele manda ela embora dizendo que não importa o que ela faça, ele nunca vai torná-la amante dele. E é isso que ela quer viu? Ser amante do cunhado no mesmo sótão onde ele se encontrava com Anita. A mulher maluca chega a dizer que nasceu pra ser amante dele! Desmiolada, só pode. Essa criatura quase carregou as alianças do casamento dele quando era criança! Assim, quando a gente pensa que não pode piorar, piora.

Eduardo vai à júri, a promotoria está convencida de que ele matou Anita e aquele teatro todo é só invenção (e não estavam nada errados), apresentam suas provas acerca da participação dele na morte dela, mas a defesa dele é muito esperta e consegue reverter o caso. No fim, o infeliz sai absolvido por maioria de votos do júri, apenas um deles o considerou culpado. Diana dá um ultimato para ele, ou larga a irmã para ficar com ela ou ela vai embora, Eduardo a dispensa e ela vai para o exterior.

Na terceira parte do livro, algum tempo se passou desde a morte de Anita. O cretino do Eduardo segue vivendo a vida normalmente, fingindo ser um bom marido, os filhos agora estão em um internato, seu negócio é reformulado e alcança sucesso, ele e Lúcia estão em bons termos, a vida parece fácil. Fácil demais. A memória de Anita é quase uma pedra no sapato da sua mente que ele procura ignorar. E, assim, essa parte da história tenta muito convencer a gente que ele é um homem regenerado tentando se reconstruir, mas, fala sério, depois daquela nojeira toda claro que ninguém compra mais essa ideia. Ele não teve mais coragem de voltar ao sótão onde tudo aconteceu, mas começou a encasquetar com o jurado que o condenou. Ele vai até o advogado para tentar conseguir descobrir quem foi.

De início, o advogado manda ele esquecer o assunto, muito tempo se passou, ele está livre, é melhor deixar aquilo de lado, mas ele insiste e o homem acaba conseguindo a lista de jurados, mas só consegue contactar 4 sobrando 3 para Eduardo procurar. Ele consegue, enfim, descobrir o voto dos três e achar qual deles o condenou, era um professor comum. Eduardo escreve para ele, mas acaba amarelando e não vai ao encontro. Só que o professor está prestes a se mudar para o exterior, então o homem finalmente cria coragem e vai atrás dele. Ele quer saber por que o professor o condenou, ele responde que sabe que ele matou a garota, mas só votou contra em favor da sua consciência porque sabia que os demais votariam a favor. Do contrário, o teria absolvido, caso houvesse um impasse que o colocasse em condenação.

De alguma forma, essa resposta deixa Eduardo leve. Como se ele tivesse sido absolvido de toda culpa por ter matado Anita. Na boa, esse cara é nojento. E ele começa a ver a vida com outro brilho, tudo parece felicidade e ele se sente um homem novo. É quando Diana, a cunhada louca dele, volta para a história. Ela está na capital e eles acabam se encontrando. E por mais que ele finja que não quer nada com ela, encasquetou que ela é a maldita Cíntia que Anita nunca foi e os dois acabam se envolvendo e não fosse horrível o suficiente, ele ainda promete largar a esposa, mudar o negócio para capital para viver com ela. Assim, a essa altura a gente que já não esperava mais nada desse livro nem se choca mais.

Mas aí vem o pior. Eduardo volta pra cidade dele, há alguns flashbacks no meio e em um deles a gente acaba descobrindo que Anita, em um período curto em que ele não esteve com ela, simplesmente perverteu um garotinho que era entregador. E sim, estamos falando de uma CRIANÇA! A desmiolada simplesmente coagiu (na falta de uma palavra melhor) uma criança a fazer sexo com ela. Não é explicitada a idade do menino, eu calculo ali uns 10 a 12 anos. Quando a gente pensa que a coisa não pode ficar mais nojenta do que já era, o autor vem com o plot twist: sempre pode piorar, meus amores. O garoto morreu dias depois atropelado e Anita custeou todo o funeral. 

Aí Eduardo, se preparando para ir embora, colocando os negócios em ordem e tudo mais, ajeitando o espírito para falar com a esposa, começa a ver o fantasma de Anita. Assim, a coisa já não fazia muito sentido até aqui, tudo doido, um monte de personagem sem um pingo de bom senso, então ele acho que era de muito bom tom colocar um toque sobrenatural na bagaceira. A essa altura eu só ficava me perguntando por que eu ainda tava lendo essa droga (mas é pra xingar com propriedade, claro). E Anita fica acusando ele de tê-la traído, chamando ele para ir até ela, dizendo que o amava e o perdoava. E eu tô fazendo um resumo bem grosseiro porque nesse ponto eu já estava zero paciência. O Eduardo então fala com a esposa que "precisa ir embora ou vai enlouquecer", mas no fim ela sabia exatamente que ele estava indo embora por causa da irmã dela.

Com tudo em ordem, depois de ser perseguido pela Anita por dias e ficado até com medo de sair de casa, o Eduardo finalmente está pronto para ir embora. O médico dele vai jantar na casa dele nesse último dia e o acompanha até a estação. No caminho, Eduardo decide voltar ao sótão, o médico o acompanha porque sozinho ele não teria coragem de ir. Lá chegando, depois de quase não conseguir subir as escadas, ele entra no sótão e começa a visualizar Anita ali dentro, com o menino que ela desvirginou! E essa parte é bizarra pra dizer o mínimo, eu nem vou entrar em detalhes. No fim, ele quebra uma estátua que tinha na casa e que, na cabeça dele, ia destruir o fantasma da finada, e vai embora, o médico se separa indo na outra direção e Eduardo segue pra estação, mas é atacado de novo pelo fantasma da Anita que está desesperado e pede pra ele ir com ela, diz que ele a traiu, tenta se jogar em cima dele, mas no fim de tudo o Eduardo consegue fugir incólume de tudo que fez e a Anita desaparece.

Assim, desnecessário depois de tudo isso falar que eu acho esse livro uma abominação. O tipo de coisa que um autor de determinada época escreve só pra colocar o nome na mídia por meio do choque porque eu não vejo um único motivo pra um livro desse existir. Muita gente compara isso com Lolita do Nabokov, eu nunca li e nem pretendo ler esse então não posso dizer que tem algo a ver e também não faço ideia de porque o autor russo escreveu essa nojeira. Toda o plano de fundo da Anita com a família disfuncional não foi de longe uma justificativa para torná-la uma devassa sem escrúpulos. O Eduardo era um cretino (pra dizer o mínimo) que se achava o garanhão e as mulheres dessa história só podiam ter sido escritas por um homem mesmo. E homens, em sua grande maioria, muito pouco entendem de mulheres. Foi um dos piores livros que eu já li, não recomendo nem para o meu maior desafeto e o que eu sinto mesmo foi que eu perdi meu tempo lendo essas duzentas e poucas páginas. Não vi a série, não vou ver. Quero mesmo é deletar essa história da minha cabeça.

[Livro] Jack, o estripador: rastro de sangue

Original: Haunting Jack, the riper

Autor: Kerri Maniscalco

Ano: 2018

Gênero: Suspense, mistério, crime

Sinopse: Audrey Rose não é a típica donzela inglesa do século XIX. Quando ninguém está vendo, a jovem realiza autópsias no laboratório de seu tio, contrariando a vontade de seu pai e todas as expectativas da sociedade. Ela pode não saber fazer um penteado elaborado, mas faz uma incisão em Y num cadáver como ninguém.Seus estudos em medicina forense a levam na trilha do misterioso Jack, cujos assassinatos brutais derivados de uma terrível sede de sangue amedrontam a cidade. E Audrey Rose, empoderada desde o berço, quer fazer justiça às vítimas - mulheres sem voz e marginalizadas por uma sociedade extremamente sexista.Na companhia de Tomas Cresswell, o aprendiz convencido e irritante de seu tio, ela decide seguir seus instintos e os rastros de sangue do notório assassino. Afinal, nenhum homem foi capaz de descobrir sua identidade. Esse é um trabalho para uma mulher.

 

Audrey Rose é a filha de um nobre inglês que, desde a morte da esposa, tem como passatempo se afundar no ópio e superproteger a filha de todas as doenças existentes na humanidade. E o que ela quer fazer? Ser legista. Seu tio, Jonathan, é um médico que se especializou na área forense embora, para a época, isso ainda fosse impensável e ele fosse visto como um profanador de cadáveres. Audrey é sua pupila assim como Thomas a quem ela conhece quando vai vestida de homem para uma das aulas do tio na universidade.

Quando a primeira vítima de Jack, o estripador, conhecido no início como avental de couro, aparece a brutalidade do crime choca todos e Audrey e o tio tem a chance de examinar o cadáver. Ela passa a ter que sair escondida de casa com a ajuda do irmão, Nathaniel, que inventa desculpas para ela ou de mentiras ditas ao pai sobre tomar chá na casa do tio. Por causa da morte da mãe de Audrey, o pai dela e o tio não se falam e nem se dão bem, além do fato do pai dela não concordar em nada com o trabalho do tio. 

Não há nenhuma pista sobre o assassino e quando a segunda vítima aparece, morta de forma ainda mais brutal, Audrey e Thomas tentam traçar um perfil do assassino, mas não chegam muito longe. Então ela descobre que algumas vítimas tinham alguma ligação com seu pai e começa a desconfiar dele, mas conforme os corpos vão surgindo, seu tio é acusado de ser o criminoso e o cerco se fecha à sua volta, Audrey e Thomas vão descobrir que Jack está mais perto do que eles poderiam imaginar.

O que eu posso dizer? Não gostei. O livro não era nada do que eu estava esperando, imaginei a gênese da ciência forense, as investigações da época, até um pouco de fantasia era aceitável, mas o que eu recebi foi uma protagonista irritante que quer ser a frente do seu tempo flertando com um guri egocêntrico no meio do caos enquanto tenta bancar a detetive com o raciocínio de um rato. Porque quem faz todo o trabalho dedutivo é ele e mesmo assim só acontece quando é conveniente pra trama. Pra ficar pior, aquela revelação de Jack não colou nem um pouco comigo. Antes ela tivesse deixado ele sem identidade mesmo! Eu dei três estrelas porque tanto a parte da "autópsia" das vítimas quanto a parte da construção narrativa foi legal. Não estou dizendo que o livro é ruim, estou dizendo que para mim, enquanto leitora, ele não funcionou. Demorei horrores pra terminar porque eu simplesmente não tinha vontade de ler, e essa ideia de deixar a protagonista feminista me soou bem forçada. Mas é isso. Zero pretensão de ler os outros dois. 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

[Livro] O Iluminado

 Original: The Shining

Autor: Stephen King

Ano: 1977

Gênero: Terror, suspense, drama 

Sinopse:  Em O iluminado, quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da família parecem estar solucionados. Não mais o desemprego e as noites de bebedeiras. Não mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny livrar-se das convulsões que assustam a família. Só que o Overlook não é um hotel comum. O tempo esqueceu-se de enterrar velhos ódios e de cicatrizar antigas feridas, e espíritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel é uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente à disseminação do mal.

 

Jack Torrance após algumas desventuras causadas tanto pelo seu gênio difícil, quanto pelo seu vício em álcool, consegue, com a ajuda de um amigo, um trabalho de zelador em um antigo hotel no alto do Colorado. Sua missão seria manter o hotel em perfeito estado durante os meses de inverno para que sua reabertura acontecesse sem problemas no início de Maio. Assim, Jack se mudaria para o hotel com a esposa e o filho pequeno durante esse período. O problema é que o próprio hotel testemunha contra si mesmo, o antigo zelador, que ficou hospedado com a família na última temporada, assassinou as próprias filhas e a esposa e depois se suicidou, além dos inúmeros assassinatos e mortes que ocorreram no hotel ao longo de sua extensa história.

Jack, por sua vez, não parece ver problema nisso. Ele garante ao gerente que ficará bem e, embora o contratante não esteja satisfeito com ele, o acordo de trabalho é firmado. No fim da temporada, Jack e a família se mudam para o hotel e recebem as últimas recomendações para passar o inverno com segurança. Tanto Wendy, a esposa, quando Danny, o filho, estão inseguros com aquele lugar, mas se mantêm firmes por saberem quão importante é aquele emprego para o pai desde que ele foi demitido de seu último trabalho em uma escola de elite por agredir um aluno.

O filho de cinco anos do casal, Danny, é o que se chama de iluminado. Pessoas com a capacidade de ver e prever coisas que pessoas normais não conseguem. O cozinheiro do hotel, Halloran, o adverte a não entrar em um certo quarto e a ficar longe da topiaria onde há arbustos em formato de animais. Ele não explica o exato motivo da advertência, mas faz o menino prometer que evitará esses lugares e o menino promete. 

O começo do inverno da família no hotel acontece normalmente. Jack cumpre suas funções e, no meio de caixas no porão, acaba encontrando registros antigos do hotel e sua história ao longo do tempo e quanto mais mergulha nessa história, mais ele começa a ser suado para o próprio passado com um pai abusivo e a ser dominado por uma devoção doentia ao hotel, fixado na ideia de escrever um livro sobre sua história. Os pensamentos de Jack começam a se misturar à história do hotel, a vontade de beber cresce mais ao longo do tempo e tanto Wendy quanto Danny começam a ter medo dele.

A atmosfera do lugar passa lentamente a corromper a mente do zelador que é envolvido em seu baile de máscaras acontecido muitos anos antes no hotel onde ele finalmente pode beber outra vez, mesmo que apenas na sua imaginação. E ele conhece Grandy, o antigo zelador que matou a família no ano anterior. Ele diz a Jack que o hotel quer o menino e ele precisa levá-lo para ele. Jack concorda, já enlouquecido pelo lugar e uma caçada começa onde Wendy e o filho precisarão lutar pela própria vida.

Olha, sendo bem franca, eu esperava mais. Não que o livro seja ruim, não é, mas sei lá, não foi exatamente o que eu imaginava. Tenho percebido que tenho certo problema com livros escritos por homens, em geral eu sempre gosto mais de livros escritos por mulheres. Não sei exatamente o motivo. Entendo que todo o contexto tanto acerca do passado de Jack quanto da sua infância com um pai abusivo e uma mãe omissa são importantes, mas eu achei tão enrolado. Ok, as informações ajudam a gente a ter uma visão mais profunda do personagem, mas isso podia ser feito de maneira mais "enxuta". Esse é meu terceiro livro de King e os personagens dele me irritam muito, eles são abominavelmente humanos no pior sentido da palavra. Jack é um babaca egoísta, Wendy é uma lerda idiota, Danny é a típica criança que só sabe se meter em problema.

Ainda assim, não posso dizer que odiei a história, não, até curti, embora ela tenha me causado mais repulsa que medo propriamente dito. Ainda não li um livro do King que me causasse realmente medo. Em geral até agora minhas experiências foram de raiva dos personagens e repulsa mesmo. Mas é inegável que ele consegue envolver a gente na história e com certeza pretendo ler outros livros dele. Ele criou aquele hotel amaldiçoado de forma tão perfeita que a gente chega a acreditar que ele existe de verdade. O final me pegou um pouco de surpresa, não esperava aquele desfecho, mas acho que naquelas circunstâncias foi o melhor. Não vou ter coragem de ver o filme que fizeram desse livro por motivos de ser covarde demais para ver sangue hahahaha. Se tem algo que eu posso realmente elogiar no King é sua capacidade de criar personagens que representam o pior da espécie humana.

domingo, 2 de agosto de 2026

[Drama] Komi Can't Communicate

Original: 古見さんは、コミュ症です。

Ano: 2021

Direção: Ruto Toichiro, Ishii Koji

Roteiro: Mizuhashi Fumie

Gênero: Comédia, Vida, Juventude

País: Japão

Episódios: 8 

Sinopse:  Hitohito Tadano (Takahisa Masuda) tornou-se agora um estudante do ensino médio. Em seu primeiro dia como estudante do ensino médio, ele conhece sua linda colega de classe Shoko Komi (Elaiza Ikeda) e diz oi para ela, mas ela não responde a ele. Hitohito Tadano se pergunta se ele fez algo errado com ela e, em seguida, percebe algo sobre ela. A razão pela qual Shoko Komi não respondeu a ele é que ela tem dificuldade em se comunicar com as pessoas. 

Como eu já resenhei o anime, vou me ater a falar apenas o que não funcionou nesse drama.

Pra começar, eles adaptaram o enredo todo então não tem nada a ver com o material original, criaram novos personagens, mudaram a personalidade de outros e mexeram em todo o esqueleto que faz a história de Komi ser o que ela é. Enquanto o anime consegue dosar de forma equilibrada o drama da personagem com a comédia, o drama fica exclusivamente com a carga dramática. Najimi, que além da própria Komi era o centro de diversão da história aqui passa a ser uma simples personagem secundária sem quase nenhum peso narrativo. E, enquanto no anime a gente nunca sabe de verdade se ela é um menino ou uma menina (e desconfia que é menino pelas memórias da infância e por algumas situações) aqui ela é apenas um garoto de saia. Ponto.

O drama pendeu mais pro lado de Kimi Ni Todoke, e falando francamente, um anime como Komi que tem uma comédia baseada em coisas que não dá pra adaptar num Live Action obviamente não foi feito para ser adaptado. Grande parte da fofura do anime funciona pelas expressões da Komi, e aquilo é impossível de reproduzir com atores de verdade, o tempo todo a atriz só parecia travada ou indiferente, a gente não conseguia ver que ela estava com medo ou nervosa. Os outros personagens do anime praticamente sumiram, restando apenas o Naruse, a Najimi e o Tadano além da própria Komi, os personagens novos do drama são o típico clichê colegial de dramas japoneses que não agregam muito na narrativa. 

O drama não tem nem um quarto do brilho do anime, não é divertido, não é fofo, e mesmo que tente aprofundar um pouco mais a Komi isso fica tão superficial que quase não faz diferença. Além do mais, o tempo foi curto demais para desenvolver a história direito. Achei fraco demais se comparado com o anime. Não recomendo.