domingo, 15 de dezembro de 2013

A Menina Que Roubava Livros - Resenha

Sinopse - A Menina que Roubava Livros - Markus Zusak

A trajetória de Liesel Meminger é contada por uma narradora mórbida, surpreendentemente simpática. Ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. Traços de uma sobrevivente: a mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler.

Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.

A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História. A Morte, perplexa diante da violência humana, dá um tom leve e divertido à narrativa deste duro confronto entre a infância perdida e a crueldade do mundo adulto, um sucesso absoluto - e raro - de crítica e público.


Finalmente consegui concluir esse livro, já não era sem tempo. Fui desleixada quando à leitura, mas mesmo assim me decidi a continuar e agora vamos comentar um pouco sobre ele.
Sempre que vemos alguma coisa relacionada ao Nazismo, seja um filme ou um documentário, o foco está sempre no holocausto, mas o diferencial desse livro é que podemos ter uma percepção que vai além disso, não é um livro sobre judeus morrendo em campos de concentração ou sendo perseguidos, é um livro sobre o poder das palavras, sobre amizade, amor e ideais. Nós vemos aqui um outro lado da Alemanha Nazista, o lado dos alemães que viviam à margem da guerra, tentando sobreviver no duro mundo de preconceito e fogo, conhecemos alemães complacentes com a dor do judeu, que é gente como ele, vemos a pobreza devastadora surgindo com o céu constantemente rubro de fogo e sangue. E acompanhamos no meio do caos Liesel. A roubadora de livros.
Deixada pela mãe, tendo o irmão levado pela morte, sobrevivendo em um bairro pobre da Alemanha, onde há meninos jogando futebol, onde apenas o mais forte dá as cartas, onde quase tudo é escasso, nos deparamos com a frágil menina – aparentemente – assustada e sem palavras. Liesel não tinha nenhuma palavra sua, embora as carregasse consigo muito bem protegidas dos olhos curiosos, ela furtara aquelas palavras, mesmo sem saber o que significavam, ela sentiu necessidade de tê-las para si. O Manual do Coveiro. É fascinante a maneira como se dá a relação de Liesel com o mundo letrado, aos poucos podemos vê-la submergir no mundo nas palavras, conhecendo aos poucos o seu peso, o seu poder, a sua magia. E torna-se impossível não fascinar-se também pelas palavras como ela, apaixonando-se desesperadamente – e ainda mais – pela magia que um livro é capaz de trazer.
E há também Max. Rudy. A mulher do prefeito. Hans. Liesel nos mostra diferentes dimensões do amor e da amizade, Max era um judeu e mesmo assim ela fez dele seu amigo, ela o trouxe para o seu mundo e salvou-o, salvando também a si mesma. Rudy era seu melhor amigo, seu parceiro de furtos, seu diário, seu amor entubado. A mulher do prefeito, fora a relação de Liesel que mais me tocou, depois de Hans. Ela salvou a mulher de si mesma, ela transformou a vida dela de tal forma que me levou a pensar no peso que a culpa e o remorso tem sobre nós, as vezes só precisamos que alguém nos diga a verdade, nos faça enxergar a realidade que tentamos ignorar, perdoar a si mesmo é uma tarefa árdua e fora a senhora Hermman que ensinara a Liesel a escrever sua própria história. Já Hans é o tipo de pessoa literalmente boa. O patamar de sua bondade está muito além do ser humano mesquinho e egoísta. Ele ama tão amplamente e profundamente que chegamos a ser tocados por sua doçura, assim como Rosa, sua esposa, mas de jeitos completamente distintos.
Enxergar esse lado da Alemanhã nazista, ver além da conhecida frieza e indiferença a que normalmente somos apresentados, me fez encarar A menina que roubava livros de uma maneira altamente positiva, não é apenas porque o livro carrega consigo uma história verdadeira e de certa forma emocionante, mas porque ele é dotado de lições preciosas. A perda é algo inevitável seja de um jeito ou de outro, mas a forma como a encaramos é que torna as coisas diferentes. Liesel Menmiger me ensinou a nunca desistir, a honrar e lutar pelas pessoas que eu amo não importa quantas feridas sejam impostas a mim por causa disso, ela me mostrou o poder das palavras, da amizade, da verdade. Hans me ensinou que humildade e bondade são as chaves para cativar corações, para salvar vidas, inclusive a sua. Ser generoso é uma obrigação do ser humano, para que ele possa ser realmente humano. Eu não consegui encarar a morte de outra forma, por mais “humanizada” que o autor tenha tentado externa-la, eu não consegui vislumbrá-la além do que já tenho em mente, a forma assustadora, agonizante e cruel. Mas mesmo assim, sua fúnebre narrativa fora válida, esse livro é capaz de fazer você repensar muita coisa sobre si mesmo e sobre o que realmente vale a pena.


Se tenho algo a reclamar desse livro são as inúmeras palavras e expressões em alemão, muitas vezes sem tradução, mas é só. Em 2014 seguirá a adaptação cinematográfica do livro, eu não tenho expectativas quanto a isso, nem sei se terei mesmo coragem de assistir depois de tudo que li, mas sei que por melhor que se faça, nunca chegará aos pés do livro. Isso é algo que tenho por certo. Se você ainda não viu, segue o trailer:

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