domingo, 16 de abril de 2017

Os 13 Porquês - Jay Asher (Livro + Série)

Título Original: Thirteen Reasons Why
Data da primeira publicação: 2007
Autor: Jay Asher
Gênero: Ficção juvenil
Páginas: 256
Sinopse: Ao voltar da escola, Clay Jensen encontra na porta de casa um misterioso pacote com seu nome. Dentro, ele descobre várias fitas cassetes. O garoto ouve as gravações e se dá conta de que elas foram feitas por Hannah Baker, uma colega de classe e antiga paquera, que cometeu suicídio duas semanas atrás. Nas fitas, Hannah explica que existem treze motivos que a levaram à decisão de se matar. Clay é um desses motivos. Agora ele precisa ouvir tudo até o fim para descobrir como contribuiu para esse trágico acontecimento.

Lembro que na época que esse livro foi lançado fez o maior alarde nas redes sociais, todo mundo só falava dele (bem o que aconteceu com caixa de pássaros), e por toda essa recomendação eu fiquei com um pé atrás de ler, afinal, já descobri que o gosto da maioria e o meu não são em nada parecidos. (Não é, Garota Exemplar / No trem?), saiu a série dele esse ano e antes de saber disso ele já estava na minha meta de leitura, a única coisa que fiz foi adiantar a leitura dele porque queria ver a série. Fiquei tão vidrada que li em um dia, entrando pela madrugada sem conseguir parar, foi uma sensação tão boa ler assim noite a fora, com o monte de coisa para fazer sempre eu havia esquecido um pouco essa sensação de simplesmente ler um livro direto sem se preocupar com mais nada. Mas antes de entrar nos fatos, vamos ao enredo.
Hannah Baker está morta. Mas ela não ia simplesmente de matar em silêncio, a lacuna de sua morte se espalha como um vírus na escola e Clay Jensen está prestes a descobrir a razão que levou Hannah a acabar com a própria vida. As 13 razões. A coisa que mais incomoda Clay é o fato de ele ser uma das razões, enquanto vai escutando a voz de Hannah contando a verdade por trás de Justin Foley, Alex Standall, Jessica Davis, Tyler Down, Courtney Crimsen, Marcus Cooley, Zach Dempsey e Kyan Shaver ele vai desvendando o mundo de Hannah - e a própria - de um ângulo que antes era impossível de ver, por trás de boatos maldosos, mentiras cruéis, acontecimentos pesados se escondem atrás de pessoas que ele pensou conhecer e todos eles contribuiram para que o fim de Hannah acontecesse. Clay não tem certeza do motivo pelo qual está na lista, mas percebe quando chega sua vez que embora seja um pouco diferente dos outros, seu medo o impediu de salvar Hannah de si mesma, Jenny Kurtz, Bryce Walker e o Sr. Porter, como todos os outros, foram apenas parte do motivo para Hannah tirar a própria vida e, mesmo depois da morte, ela acaba dando a Clay uma visão diferente do mundo, de si mesmo, das pessoas que o cercam, dando-lhe a chance de fazer por alguém estimado aquilo que ele não pôde fazer pela garota que gostava por sua própria covardia.
O que gira em torno de 13 porquês é bem mais do que a superficialidade do livro mostra como muita gente que eu vi comentando pensa. quando a série foi lançada li muitos comentários negativos de pessoas que leram o livro e de pessoas que não leram, precisamos refletir acerca de três perspectivas para poder entender a profundidade da narrativa de Asher que é muito mais que uma menina que se matou por causa de bullying.

  • O primeiro ponto a ser tratado é a desconstrução de Hannah Backer ao longo da narrativa. Somos levados pela sua narração e pelo ponto de vista de Clay simultaneamente, temos a visão dos dois extremos da história. Hannah é uma personagem psicologicamente instável numa cidade nova onde a única amiga que ela tinha acabou de ir embora. Durante a leitura eu percebi que a estima de Hannah não era muito baixa, ela era uma personagem sujeita a acreditar no julgamento das pessoas, sujeita a se deixar levar por esse julgamento e sem muita confiança em ninguém, do tipo meio ingênua, influenciável. Conforme os acontecimentos vão se arrastando em torno dela, conforme essa visão de si mesma vai se deturpando mais e mais, ela se fecha em si mesma, inclusive em um momento ela reconhece seus sentimentos por Clay, reconhece que ele era capaz de tirá-la daquela espécie de "poço" no qual ela achava estar caindo, mas estava tão presa à visão que construíram dela - e que a partir disso ela construiu de si mesma - que não conseguia mais se soltar. O que nos leva ao ponto dois.
  • Bullying não é brincadeira. Você que criticou a Hannah por tirar a própria vida é, provavelmente, um dos causadores do distúrbio psicológico de alguém. Entendam que só é piada quando o alvo também ri e, ainda assim, deve ser evitado. Estão por dentro de quantas pessoas são mortas nos EUA e no mundo por serem intimidadas na escola? Quantas tragédias de jovens que cometem chacinas em escolas por terem sido vítimas de intimidação? Quando uma pessoa é instável psicologicamente ela está sujeita a depressão, Hannah aos poucos foi afundando em uma tristeza e uma falta de esperança invisíveis depois que perdeu Kat a única amiga que tinha, ela foi traída pela pessoa que gostava, aos poucos todo mundo virou as costas para ela, começou a ser ridicularizada, difamada, no lugar dela talvez você se sentisse o badass que vai mostrar a eles quem é que manda, mas entenda que nem todo mundo é como você. Diariamente ser chamada de "vadia/palhaça/gorda/baleia/magrela/idiota etc" (e veja que estou colocando apenas os mais suaves) mexe com a forma como uma pessoa passa a ver a si mesma. Talvez, Hannah tivesse tido uma atitude diferente se, um pouco antes, conseguisse se abrir com Clay a única pessoa em quem ela sentia poder confiar. Então, uma dica, se você não tem nada de bom para dizer sobre alguém, cale-se. Não use pessoas para diminuir ou se vingar de outros. Não construa sua fama em cima da dor alheia. Não faça outra Hannah nascer na sua escola/faculdade.
  • Depressão não é "carência de atenção". Um dos pontos que chama atenção no livro é quando Hannah sugere secretamente que sua professora converse sobre suicídio, ela estava em busca de ajuda, de conforto, mas encontrou apenas preconceito. Há realmente um forte preconceito com potenciais suicidas e com pessoas deprimidas, como uma diagnosticada com a doença - porque sim, meu caro, depressão é uma doença - eu sei bem disso. Enquanto lia, muitas vezes me identifiquei com a sensação de Hannah quando ela começou a cogitar a ideia de tirar a própria vida, isso havia passado na minha cabeça inúmeras vezes ha alguns anos. no início da doença. Uma pessoa que não tem sensibilidade o bastante ou que nunca conviveu com essa doença é incapaz de saber a sensação sufocante que uma vítima vive diariamente sem encontrar saída, perspectiva positiva ou esperança para si mesmo. Não é simplesmente uma "fraqueza" ou "falta de fé" e digo esse último porque sempre fui uma pessoa muito devota, nasci católica e não precisei mudar de religião para encontrar o conforto que precisava para conseguir seguir em frente, vivo sim com alguns resquícios da doença, mas em maior parte estou muito bem hoje em dia. Uma pessoa deprimida precisa de ajuda, cuidado, precisa se sentir segura, sentir que tem alguém ali em quem ela pode confiar e que ainda que ela se recuse a falar a pessoa está lá para quando ela se sentir confiante o bastante para se abrir.
Infelizmente, histórias como a de Hannah continuam sendo comuns hoje em dia. Faltou força para ela? Sim. Faltou coragem para buscar ajuda? Sim. E é assim que pessoas deprimidas e potencialmente suicidas são, nem todo mundo é "forte" e mentalmente "são" como você, camarada. Palavras machucam muito mais que qualquer ato, por isso pese bem as suas antes de sair por aí falando besteiras para os outros. Hannah cresceu no meio de pais que não estavam atentos à sua vida (agradeça quando seus pais "pegarem no seu pé", eles estão tentando evitar que você se torne uma Hannah), ela não tinha autoconfiança, estava completamente sujeita a opinião das outras pessoas acerca de si mesma, sentia-se solitária, apresentava sinais claros de depressão, sentia-se revoltada com a vida, com o rumo que tudo tomou para si. As pessoas a volta dela se aproveitaram da sua fraqueza, nutriram-se dela até apagarem toda a sua vontade de viver, até que ela não aguentasse mais respirar e chegasse àquele extremo. Todos nós, diariamente, podemos estar construindo uma nova Hannah, no meu tempo de escola e até mesmo de faculdade, inúmeras vezes eu quase me tornei uma, a diferença é que eu tenho uma família forte, uma irmã amorosa, alguns amigos muito insistentes e, sobretudo, a minha escrita. Eu consegui me tornar forte o bastante por essas pessoas e por essa ação (escrever). Hannah não tinha nada disso.
Enquanto eu mergulhava na história dela, percebia que o livro era bem mais que uma história de jovens adultos, era um alerta, foi escrito para causar uma reflexão acerca do assunto. Ele mexe com temas pesados (difamação, suicídio, estupro) justamente porque seu intuito é alertar, informar, prevenir. Você pode pensar que ser um Clay, que não intimida, não interfere, não "se importa" é uma atitude que está ajudando, afinal,  você não está interferindo. Não é culpa sua. A partir do momento que você se omite você se torna um culpado também. Hannah podia não culpar Clay abertamente, mas ele sabia que estava naquela lista por causa da sua omissão, ele nunca se levantou contra ela, mas nunca se levantou a favor. Nunca a levantou. Achei uma leitura muito válida, realmente prende você até o fim do livro e ajuda a entender um pouco a cabeça de uma pessoa suicida, para muita gente que leu ou mesmo só viu a série, as razões de Hannah podem não ter sido fortes o bastante para ela fazer o que fez, mas nós só temos uma visão do que ela passou, a gente não tem nem sequer o mínimo da dimensão de como ela se sentia. E apesar do leve toque de humor negro na história, acredite quando digo que nada disso é brincadeira.


A Série 13 Reasons Why (Netflix)

Produtor: Joseph Incaprera
Editor: Leo Trombetta
Roteiro: Brian Yorkey
Episódios: 13
Temporadas: 1
Ano: 2017
Elenco: Dylan Minnette

Katherine Langford
Christian Navarro
Alisha Boe
Brandon Flynn
Justin Prentice
Miles Heizer
Ross Butler
Devin Druid
Amy Hargreaves
Derek Luke
Kate Walsh

Apesar de ser uma adaptação do livro, há muita coisa diferente na série. Começando pela cronologia, no livro Clay escuta as sete fitas em uma noite/madrugada, não há diálogos entre os demais personagens ou interações fora da narração de Hannah e no máximo entre Clay e Tony. Na série eles dividiram em 13 dias , ela conta meio que uma "rotina sem Hannah" em que as personagens que já ouviram as fitas refletem o que Hannah disse, encaram as verdades do que fizeram e, até mesmo, negam alegando que é mentira a fim de se protegerem. Uma das coisas que mais me irritou foi o modo como eles retrataram a relação de Hannah e Clay, no livro ela não é muito próxima dele, ainda que os dois se dêem muito bem quando estão juntos, na série é meio que quase impossível que eles conversem cinco minutos sem que ela se magoe (WTF?). 
Eles criaram uma rotina em que Clay brinca de detetive ouvindo uma fita por vez e indo atrás de pistas que digam se Hannah falou a verdade, sem contar que, na série, Clay é meio babaca, completamente diferente do personagem do livro. Essa mudança de personalidade das personagens, de foco, talvez tenham passado a ideia errada para quem não leu o livro. Se eu tivesse assistido antes de ler o livro teria passado para mim. É um enredo novo a partir do livro, mostra um pouco da perspectiva de cada uma das razões de Hannah diante do que ela fez e disse, e eles mexeram tanto no enredo do livro, na narração da própria Hannah, inclusive, que ficou bem difícil comparar os dois. Eu particularmente não curti isso. Há várias lembranças que esse Clay da série tem que não acontecem no livo e que dão, de certa forma, um novo rumo na história. Um novo foco.
Por um lado, porém, gostei como ela mostra de um jeito mais explícito os crimes que envolveram o mau estar e a depressão de Hannah, difamação, invasão de privacidade, assédio sexual, tortura psicológica... nossa, dá pra fazer uma lista grande se for elencar todos. Então, queridinhos, não é só sobre bullying escolar. Já parou para analisar isso? Mas essa pegada detetive justiceiro do Clay, esse jeito de mostrar o resultado das fitas, a paranoia dos personagens, o processo dos pais dela que no livro nem estão mais na cidade, os acontecimentos que eles mudaram bruscamente de um para outro eu achei meio desnecessário. Acho que a ideia de fazer um filme teria sido mais plausível pra essa história. As mudanças foram tantas que a série chega quase a ser uma nova história. Achei que fugiu um pouco do livro sim apesar de tudo. Ainda assim é válido para fazer a gente refletir sobre que papel estamos assumindo na vida das outras pessoas, nos lembra do que é ética, nos lembra do que é empatia, sensibilidade, bem comum, senso. Coisas que aparentemente nossa sociedade tão "desenvolvida" esqueceu.
Entretanto, dos dois, continuo recomendando o livro. Achei melhor. 

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