domingo, 11 de agosto de 2019

[Livro] Os Cinco do Ciclo

Autor: Elias Flamel
Páginas: 556
ISBN: B075GZJBLR
Ano: 2017

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Sinopse: Yosef de Keltoi. Presenteado na infância, por uma de suas mães, com um tesouro de muitas páginas. Cresceu com pouco, encontrou o seu amor e ao lado dela teve que instigar uma revolução entre trabalhadores do campo. Sua vitória não foi perfeita, pois falhou contra os deuses que tanto venerava. Assim, o líder de uma vila pequena, e quase oculta entre os quatro cantos do mundo, vive o começo da sua velhice. 

Não reclama de ter vivido muitos ciclos e é servo de um império que pintou de rubro nações que ousaram ser grandes. Sempre preocupado com o seu povo e com a sua família. Qual vem primeiro? É uma pergunta que necessita de tempo e páginas para ser respondida. Hitalo, o mais velho dos seus filhos, exige mais firmeza com os homens do campo. No auge da juventude, o divertido e criativo Yohan deseja provar para o seu pai que é um homem feito. Morgiana, companheira de luta, enxerga muito além do que os olhos podem ver e deseja alertar o seu amado Yosef a respeito de algo muito difícil de fugir. 

Yosef parte para Numitor, sua viagem tem como destino a capital de todo o império, lar dos homens de togas brancas que praticam um culto conhecido pelas eras. E esses mesmos homens possuem legiões em seu poder. Era para ser somente mais uma viagem dos tributos, mas o homem comum ouve boatos que colocam em risco o seu lar, a sua cultura e as suas crenças. Uma ajuda é mais que necessária, mas aqueles que são os mais poderosos e dotados de uma sabedoria milenar começam a pedir socorro. Só Yosef, o líder, pode salvar o que tanto ama.

Ao tentar, é exposto o seu passado manchado, ele reencontra velhas amizades e conhece desejos guardados dentro do peito de um dos seus filhos. Sua vontade de ter o que tanto deseja fará Yosef se embrenhar pelas ruas do império. Será preciso conviver com ladrões, fardados de rubro, uma sociedade que ama a prata e o ouro e terá de lutar até mesmo contra a fúria da natureza. 

Não costumo atender pedido de leitura, em especial porque eu programo as leituras do ano todo em Dezembro e vou fazendo modificações apenas com o ritmo que consigo manter em cada mês, contudo, quando o autor decidiu entrar em contato comigo e pedir que lesse o livro dele, seis meses atrás, duas coisas me fizeram ceder: a primeira a paciência dele em esperar o meu tempo e respeitar meu cronograma para encaixar o livro dele; a segunda o fato de conhecer a realidade de ser autor independente num país que ainda lê tão pouco, em especial autor de fantasia que é um gênero difícil e pouco consumido, infelizmente. Então, olhando minha velocidade de leitura, que ia sofrendo alterações conforme os estudos de concurso vão se tornando mais exigentes, acabei conseguindo encaixar o livro dele este mês (respeitando a ansiedade de saber o que se acha da sua história uma vez que, sendo autora, também passo por isso).

A primeira coisa que me surpreendeu, na falta de uma palavra melhor, no livro foi o fato de, ao contrário do que pensei quando vi a capa, se tratar de uma fantasia crítica que nada tem a ver com magia. Diria, inclusive, que se encaixaria numa espécie de fantasia distópica cujo epicentro é a crítica clara ao fanatismo religioso que bebe nas fontes históricas da humanidade. Com uma mistura de toda uma cadeia mitológica que permeia a história do mundo, Flamel soube inserir sua própria mitologia e fazê-la ter sentido dentro da história que conhecemos e estudamos na escola. Acredito ter sido esse um dos acertos mais notáveis desse livro.

Nós acompanhamos a história de Yosef, um homem já de certa idade que vive em uma espécie de ilha (e essa é uma conclusão minha, porque na falta de mapa não dá para ter muita certeza da geografia da história) que serve ao império de Numintor, ao meu ver, uma quase escrachada analogia ao império Romano, inclusive, o mito da fundação de Roma é mostrado de maneira muito inteligente na história.  Ele é o líder do povo de Keltoi, ao lado de sua esposa Morgiana, sua ama Guilda e seus três filhos Hítalo, Yohan e Julian, nessa ilha, o povo adora aos cinco do ciclo que são cinco deuses semelhantes a outras crenças politeístas como a celta, por exemplo, contudo, em uma de suas aborrecidas viagens ao império para levar seu tributo ele fica sabendo sobre fantáticos religiosos que estão dizimando as crenças tidas por pagãs em nome do monoteísmo adotado pelo imperador e, em breve, imposto sobre todas as terras sob seu domínio.

Yosef, desesperado pelo provável fim do seu povo e atormentado por pesadelos que encara como pedidos de socorro dos deuses que adora, decide convocar o conselho da cidade para decidir o que devem fazer. Dagda, o agricultor mais velho da ilha, aconselha que todos devem ir embora e se estabelecer em outro lugar, mas a ideia é logo rechaçada por Hítalo que sugere que eles devem lutar para proteger sua crença. Yohan, por sua vez, sugere ao pai que vá pedir proteção ao império uma vez que, como parte do domínio, eles têm dever de protegê-los. No fim, Hítalo decide seguir seu caminho como uma rota alternativa em busca de armas e pessoas para proteger Keltoi, Yosef segue para Rômula, sede do império, em busca de um senador que possa proteger seu povo.

No seu intento ele conta com a ajuda de Lucien, um livreiro e estudioso que trabalha como escriba no senado, para infiltrá-lo na tribuna e, assim, conseguir conversar com o único dentre os senadores que pode apoiar o salvamento de Keltoi dos fanáticos. Contudo, o que vê lá dentro só faz com que Yosef tenha certeza da mancha de corrupção e ganância que engole aqueles que ocupam o poder e são ofuscados pelos privilégios advindos do suor das classes dominadas.

"Os senadores brigam por brigar e só ouço palavras cuspidas. Não querem uma solução, querem mostrar que lutam, querem se defender. Exibem-se para os seus adversários? Para as imagens dos imperadores nas paredes? Ou para os deuses desse culto chamado política?" (Cap. 33)


Por vezes, a intenção do autor em fazer críticas tanto ao fanatismo religioso que apagou tantas crenças tidas como pagãs é claro, não somente isso, mas o uso comercial atribuído à religião por aqueles que detém o poder, além de uma quase analogia muito válida ao nosso sistema político atual que tem o desejo de se tornar uma teocracia forçada "goela abaixo" em todo o país. Além disso, faz-se criticas sociais muito pertinentes sobre as desigualdades além de mostrar um retrato alegórico da Roma em seus últimos séculos após Cristo, inclusive, um fato que eu achei bem curioso nesse livro é que a história se passa justamente após a crucificação de Cristo quando o monoteísmo começava a se espalhar, considerando que, segundo historiadores, a crucifixão aconteceu em 33 d.C e sendo Keltoi um vilarejo fictício tal qual Numintor, fiz uma estimativa do período em que a história se passa.

O império romano perdurou entre  27 a.C. – 476 d.C., se cristo foi morto no ano 33 d.C e, a partir daí o monoteísmo começou a ser disseminado, tomando como base tanto os conflitos políticos e a possível analogia ao império romano dada na história, presumi que o livro se passa ali pelos anos 305, uma vez que o imperador de Numintor convertera-se ao monoteísmo e, na história, Constantino foi o primeiro imperador romano a se converter ao cristianismo e ele foi imperador do Império Romano entre os anos de 306 a 337. Mas, como disse, isso são suposições minhas.

Num cômputo geral eu gostei bastante da história, Flamel se mostrou uma promessa da literatura  fantástica nacional, seus livros se equiparam facilmente a títulos como O Nome do Vento fonte na qual foi claramente inspirada, O Clã dos Magos e até mesmo O Caça-Feitiço. Por vezes achei o excesso de descrição um pouco cansativo, muitas vezes o personagem se estendia em divagações ou histórias paralelas, além de cenas que se alongavam demais e davam a impressão que a leitura não fluía, mas isso não tira o mérito da obra enquanto excelente composição literária brasileira. Os diálogos, a composição de cenários e mesmo as histórias de base das personagens foram muito bem trabalhadas, algumas mostram mais presença que outras, tanto pela sua expressividade quanto pelo seu próprio papel na trama.

Confesso que, no fundo, esperei um final diferente (quem me acompanha sabe que eu sou a defensora dos Happy endings), mas tanto a reviravolta nos últimos capítulos quanto os tristes eventos desencadeados no fim da jornada de Yosef fora plausíveis dentro da história construída e do universo histórico da trama ainda que este não tenha sido explicitado. Flamel faz uso de uma linguagem em sua maior parte simples e acessível, mas não deixa o leitor na mão ao apresentar-lhe algumas palavras e locuções novas, algo que sempre considero muito válido em um bom livro. Além disso, sua prosa por vezes poética consegue dar profundidade e formar um cenário mental durante a leitura o que tomo como essencial em um livro de fantasia dessa natureza, ainda que não seja tão embasada no gênero.

Antes de começar a leitura pensei que leria uma fantasia mais voltada para a magia e os elementos aos quais estou acostumada em minhas leituras, de modo que foi uma boa surpresa encontrar um livro com uma construção verossímil de uma terra e cultura alocadas num período histórico específico e que aborda temas ainda tão atuais seja por meio de analogias implícitas ou explícitas nas suas cenas e diálogos. A razão para ter recebido minhas três estrelas e não quatro foi justamente o fato de ter essas partes mais "esticadas" tal como é comum em O Nome do Vento (tinha uma que nunca esqueci em que Kvote ia matar um dragão e parecia que ele ia levar o livro todo só pra fazer isso, beirava a loucura na minha paciência!) e mesmo Os Cinco do Ciclo sendo um livro bem mais "enxuto" em comparação a prosa arrastada de sua fonte inspiradora, isso me incomodou um pouco. Concluo que, talvez, eu não seja uma leitora de fantasia e reitero que esse é meu ponto de vista o que não quer dizer, de forma alguma, que o livro é ruim.

Para os leitores de fantasia desde Tolkien a Assassin's Creed, recomendo fortemente Os Cinco do Ciclo, em especial se vocês gostam de histórias com certo cunho histórico e que evocam essas reflexões críticas acerca de política e religião de uma maneira mais lúdica (ainda que preservando a seriedade que o assunto pede) e sem deixar de lado a imparcialidade de suas personagens que assumem diferentes pontos de vista e apresentam muito bem suas discussões. O livro deixa a ideia que a  história terá uma continuação, pelo menos foi a impressão que eu tive no epílogo, me resta desejar boa sorte ao autor e parabenizá-lo pela construção de um enredo tão bem feito. E essa conclui a primeira leitura de Agosto! 

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