quarta-feira, 3 de junho de 2015

Emma Bovary e Capitu - Dois livros e uma traição

Então gente, como eu não tenho vindo muito no blog por causa da faculdade e, por isso, parei de ler o que estava lendo, decidi trazer então as duas leituras que fiz para um trabalho na faculdade e é o que vou postar, não vai ser, exatamente, uma resenha, mas vai falar um pouco dos dois livros e do que eu achei deles isso até eu conseguir voltar a ler normalmente, minhas férias estão pertinho já, logo vou estar livre de novo! Então, vamos lá.

O CASAMENTO COMO ESTOPIM PARA O FIM DA VIDA

Emma e Capitu são, sem dúvida, duas personagens que vieram para desafiar os bons costumes de uma igreja que prega a harmonia matrimonial, o entendimento entre casal e, sobretudo, a fidelidade. Duas mulheres que se casaram visando a uma vida perfeita e confortável, envoltas na ilusão de uma felicidade toldada em utopia e, diante de suas decepções, buscaram no adultério o caminho para preencher o vazio monótono no qual suas vidas se tornaram. Comparando Emma Bovary e a dissimulada Capitu, o desenvolvimento do presente trabalho consistirá em uma análise de suas condutas como mulheres e esposas e as possíveis razões que as levaram a ir contra a “boa moral” social burguesa e religiosa.
Começando com Emma Bovary, uma mulher sonhadora, que tinha em mente viver como nos romances que lia, uma vida perfeita, confortável, coroada de luxo e caprichos satisfeitos, assim, ela acaba se casando com Charles Bovary, um médico que prometia um futuro promissor. Emma não amava Charles, e se vê dentro de um casamento sem amor, contraído apenas para satisfazer seus caprichos fúteis, mesmo que o marido a idolatre ela não consegue encontrar felicidade alguma em sua condição de casada que em nada se assemelha aos livros de vida abastada e cheia dos requintes da burguesia, muito embora Charles se esforce para cobrir todos os seus caprichos.
Com o tédio da sua vida de casada, surge o convite para um baile oferecido pelo Marquês d'Andervilliers, lá, ao ouvir as pessoas reclamando de seu tedioso marido, Emma desenvolve por ele uma repulsa ainda maior, reclama a ele de tédio e os dois decidem se mudar, ao mesmo tempo em que descobrem que ela está grávida. Lá, Emma conhece Léon Dupuis, escrevente do advogado. Logo, dá à luz  Berta e sua amizade com Léon cresce consideravelmente, até que ele vai para Paris. É quando a mãe de Charles proíbe Emma de ler e ela conhece Rodolphe, que a corteja e o caso começa, fazendo com que ela tenha, inclusive, planos de fugir com ele já que as brigas com a mãe de Charles estão cada vez maiores. Rodolphe foge sozinho e Emma cai doente. Charles fica assolado por contas, Emma se torna religiosa, quando então reencontra Léon na apresentação da peça Lucia di Lammermoor.
Ela começa então suas “lições de piano” às quintas-feiras, e começa a mexer nas contas, as coisas começam a sair do controle e ela começa a pedir dinheiro emprestado a várias pessoas, Rodolphe não pode ajudá-la, então Emma se suicida com arsênico. Charles descobre as traições da mulher e morre. A filha do casal vai morar com uma tia e passa a trabalhar pelo seu sustento.
Percebemos que nada parece satisfazer Emma, o que muitas vezes nos faz perder a paciência com o livro, mas é quando começamos a analisar seu comportamento que percebemos que ela nada mais é que um recipiente vazio. As únicas coisas que existem em Emma são a ambição sem limites e a pretensão de acreditar merecer tudo que seu pobre marido não pode lhe dar. O amor sincero e a devoção de Charles não são suficientes para ela, porque ela própria não conhece esse tipo de sentimento, é uma mulher fria e presa a emoções envoltas em uma utopia que ela sequer entende. Fazendo um paralelo às “Emmas” de hoje, vale destacar o ponto em que ela se torna religiosa, hoje em dia é algo muito comum as pessoas viverem uma vida desregrada e sem escrúpulos e, de uma hora para outra, se abrigarem sob os braços da religião a fim de expiar suas escolhas mal-faladas e apontadas pela sociedade. Afinal, assim como o romance de Flaubert critica o modo de vida burguês e seus valores, além do clero, uma ponte com a hipocrisia da sociedade atual também é válida, pois as pessoas se prendem à religião para refrear os desejos que nutrem no seu íntimo, mas que são condenáveis aos olhos da sociedade e do “deus” autoritário e impiedoso que é pregado por ela.
Assim, também como Emma, temos a história de Capitu, célebre personagem de Machado de Assis cujo mistério da traição permeia diversas teorias. Na trama, narrada por Bentinho, vemos o nascer do amor advindo da amizade de infância que floresce às portas da ida de Bentinho para o seminário. Desde a adolescência, Capitu se mostra uma garota determinada e meticulosa, astuta e com ideias bem à frente do recato de sua época. Enquanto Bentinho está no seminário, suportando a falta dela e apoiando-se na amizade com Escobar, a menina ganha terreno no coração de sua futura sogra enquanto maquina seu futuro ao lado do homem desejado. Já casada com ele, cumpre o dever de mostrar-se à sociedade, se há algo na trama de Dom Casmurro que Bentinho deixa bem claro é que Capitu gostava de se mostrar, gostava de ser vista e, sobretudo, apreciada. Logo, Escobar casa-se com a melhor amiga de Capitu, e ambos têm uma filha. Invejosos, Bentinho e sua esposa oram a Deus por um filho que nunca vem, até um dia, misteriosamente, após Bentinho voltar para casa, depois de sair para ver uma peça, uma saída em que deixara a esposa doente, encontra o amigo Escobar à sua espera e uma Capitu muito bem disposta aparentemente, não muito depois de algumas tentativas, ambos, Bentinho e Capitu, têm um filho. Não dá para afirmar de certeza que Capitu fora infiel, mesmo que haja evidências que apontem isso, além do fato de o filho de Capitu se parecer, inevitavelmente, com Escobar. O fato de que a própria esposa de Escobar passou a tratar a amiga com certa distância, o fato de Capitu chorar a morte de um homem que, a princípio sequer queria conhecer, mas precisamos ver que a semelhança que ele vê entre seu filho Ezequiel e seu finado amigo Escobar pode ser, simplesmente, fruto de sua mente deturpada pelo ciúme doentio que tinha de Capitu.
A narrativa de Bentinho é toda moldada pelos seus próprios pensamentos, conclusões e visão possessiva sobre a esposa. Muitas vezes, a prosa em Dom Casmurro se perde em eventos distantes que tornam a trama ainda mais complexa de ser entendida, o narrador Bentinho é confuso quanto ao deslocamento de sua própria trama ou isso é feito propositalmente para nos confundir ainda mais. Os desfechos se seguem semelhantes ao de Madame Bovary, muitas mortes no final, a diferença está no modo como as obras são contadas. Enquanto Flaubert é direto e explícito quanto à infidelidade de Emma, Machado é sutil tornando a possível traição de Capitu um total mistério, mas em comparação à composição de ambas, enquanto Emma é uma mulher frívola totalmente voltada ao egoísmo e seus desejos desconsiderando as consequencias dos envolvidos, Capitu é mais sensível, centrada, meio misteriosa, é verdade, e enquanto astuta e, mesmo como diz o próprio autor, dissimulada, em certas ocasiões, não é vazia como Emma Bovary, tampouco ambiciosa ou egoísta.
Desde o começo da trama de Flaubert, o narrador deixa clara a insatisfação de Emma com o casamento; como exemplo, a cena do almoço, em que Charles come devagar e obriga Emma a aturá-lo à mesa. Ao contrário de Capitu que tanto lutou por seu casamento, mas nada fez para que ele não findasse. É um contraste a ser visto em ambas as obras, Charles adorava a esposa com veneração submissa, mas era meio cego quanto à sua conduta. Bentinho era devoto a Capitu de igual modo, mas seu ciúme doentio era o principal problema da relação de ambos o que mostra que ele era de tal forma inseguro, tivesse motivos ou não, que era incapaz de confiar na esposa. Com isso, vemos que o casamento, para ambas as personagens, tornou-se tedioso, em Flaubert isso é escancarado, em Machado é sutil, dissimulado.  Está nítido que Emma vai arrumar um amante que supra seus desejos e sonhos, mas em nenhum momento você tem certeza sobre o que Capitu vai fazer. Nos dois casos, os romancistas deixam impresso que o casamento para elas é um tédio, curiosamente, para os maridos não, mesmo que Bentinho viva às voltas com seus solilóquios doentios. Concluímos, por fim, que os autores compreendem a traição, mas não a perdoam, uma vez que as duas personagens têm fins trágicos, Emma se mata com arsênico e Capitu é exilada do lugar onde nasceu junto com o filho, que morre depois dela de febre tifóide. O casamento é uma instituição tão enfadonha que leva ao adultério, e do prazer ao suplício é apenas um passo.
Algo também fortemente presente nas obras é a crítica à moral religiosa. Emma é uma verdadeira afronta à igreja, enquanto a narrativa de Machado é sarcástica quanto à fé e o rito católico. Ele brinca com as passagens bíblicas de modo cínico tanto na voz de Bentinho, quanto do infame José Dias ou mesmo de Capitu. O que nos fica impressos dessas obras é que o casamento é uma instituição fadada ao fracasso, a moral religiosa, tal qual a crença, é um modo de tolher-nos as vontades  e, dessa forma, impedir-nos de dar voz aos pequenos prazeres que poderiam nos tornar mais felizes. Não importa quanto se ame e se devote a alguém, o amor é uma utopia e uma via de mão única, uma forma “maquiada” de se obter de alguém algo que queremos. Ambas as obras nos mostram que o mundo das aparências é uma máscara que encobre o da essência: o ser humano é frágil e contraditório, vive para dar “explicações” sociais do que faz e do que deixa de fazer, vive em função de opiniões que não lhe apetecem, se dobra diante de utopias e ilusões que trilham o caminho de sua ruína.  Emma e Capitu são reflexos da complexidade que é a natureza humana, moldada em um sentimento inexistente que, agregado a convenções sociais, tem o trágico desfecho da infelicidade. Não afirmo que Capitu traiu Bentinho, quem garante, no fim, que não é ele o traidor? Que história conta Bentinho,  a de Capitu? Ele passa a trama fazendo-se coitado, levando-nos no seu jogo de verdades mascaradas, posa de personagem romântico contemplador das estrelas enquanto pinta uma Capitu habilidosa, sutil e prática, que calcula os objetivos a atingir, mas esconde essas características - que também lhe pertencem - ao traçar o próprio perfil. Enfatiza a objetividade do que conta, mas como pode ele ser imparcial tendo em conta que é o foco principal do “suplício”? Podemos dizer que Bentinho é, como pinta de Capitu, o próprio mentiroso da obra, essa teoria também é válida, as pessoas ficam de tal forma centradas nos “pecados” femininos que não param para pensar que o Dom Casmurro pode ser simplesmente um jogador usando de sua retórica para nos fazer crer na sua verdade.

Então, é isso o próximo livro que eu tenho que ler é O Cortiço do Aluísio de Azevedo, provavelmente quando eu terminar eu traga ele aqui também... Me desejem sorte nos trabalhos e nas provas que vem por aí. A propósito, não que seja importante, mas eu tirei 9,5 com esse trabalho, Beijocas, lindos, até a volta!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Machado de. – Dom Casmurro, 192 páginas. Editora Ciranda Cultural. 2008.
FLAUBERT, Gustave. – Madame Bovary, 282 páginas. Coleção Novis. Biblioteca Visão – 28, Publicações Europa-America (Digitalizado). Agosto de 2000. Editora Abril (Impresso).
NOGUEIRA, Paulo. - Emma, Capitu & Ana: um olhar comparativo para o supertrio das adúlteras da literatura mundial (blog):
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/emma-capitu-ana-2/


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