quinta-feira, 6 de setembro de 2018

[Livro] Nova Jaguaruara

Autor: Mauro Lopes
Ano: 2017
Páginas: 240
ASIN: B075773MC3
Gênero: Suspense, terror

Sinopse: Um antigo e curioso evento acontece todos os dias em Nova Jaguaruara, uma pequena cidade no interior do Ceará: à meia-noite, as luzes se apagam e a cidade cai na escuridão por exatamente um minuto. Vicente e sua equipe de trabalho chegam à cidade para estudar as condições para a instalação de torres de energia eólica na região e, quem sabe, resolver o estranho problema de queda de energia. O que eles não sabiam, entretanto, é que a cidade esconde uma terrível história relacionada ao desaparecimento de pessoas desde o início do século XX. A única coisa de que são alertados desde o primeiro dia é o fato de não poderem se aproximar de uma igreja abandonada na beira da estrada, um pouco afastada de Nova Jaguaruara. Infelizmente, o aviso não é o suficiente e logo Vicente e sua equipe encontram-se presos nos terríveis mistérios da cidade.


"Mas se tem uma coisa que eu aprendi é que o mal se incomoda quando tudo vai bem e dá sempre um jeito de acabar com a paz dos outros." ( Capítulo 3)

Quando vi a Beatriz Paludetto e a Tatiana Feltrin falando tanto desse livro, fiquei curiosíssima para ler, aproveitei uma promoção da Amazon e comprei no cartão de uma colega pela minha conta no site. Decidi, após um abandono e por ter finalizado antes do prazo, colocá-lo junto a mais dois livros na minha meta de leitura. Gente, posso dizer que todas as minhas expectativas foram devidamente satisfeitas. Geralmente fico com um pé atrás quando se trata de livros muito hypados pelo povo, se todo mundo fala é um sinal que há a enorme possibilidade de eu detestar como aconteceu em A Garota no Trem e Caixa de Pássaros. Felizmente isso não se repetiu com Nova Jaguaruara.

O enredo do livro é bem simples, mas não pouco complexo. Nós acompanhamos, a princípio, enredos muito distintos que podem dar a impressão, em um primeiro momento, de que o livro acompanha a vida de personagens em contextos diferentes, como vários contos que montam uma mesma linha de raciocínio, apenas mais para frente, em torno do capítulo seis ou oito, vamos entender que o tempo na história não é linear e aprendemos a separar o que é passado do que é presente. 

A cidade de Nova Jaguaruara localiza-se no estado do Ceará. Um lugarejo simples, com pessoas tementes a Deus e um estranho evento diário: à meia noite, sem qualquer aparente explicação, as luzes de toda a cidade se apagam durante um minuto. Não importava quantas vezes se procurasse defeito no fornecimento de energia, nada parecia resolver o problema. Um grupo de amigos, desafiando a sorte, decide fazer uma aposta de entrar no local mais proibido da cidade, uma velha igreja abandonada a vinte e um quilômetros de Nova Jaguaruara, próxima a estrada. O fato do local ser proibido é graças ao número de desaparecimentos inexplicáveis que ocorreram nos arredores daquele local, tido por amaldiçoado pelas pessoas da cidadezinha.

Quando dá meia noite, os meninos fazem um sorteio para entrar na igreja. Pedro, o mais novo do grupo, é sorteado, mas de tanto medo que sentia, seu irmão mais velho, João, decide entrar no seu lugar. Vitorioso, sai alguns minutos depois com um cálice que pegara no altar, seu troféu. Contudo, ao tentar ir embora com seus amigos, João descobre tarde demais que nunca voltará para casa novamente. A história, então, segue o nascimento de Bonifácio em uma família tida por amaldiçoada, todos os homens dessa família morriam e o nascimento desse menino, cuja mãe morrera no parto, veio acompanhado de um evento extraordinário que levaria aquela cidade a uma reviravolta nunca imaginada.

Somos apresentados também a um grupo de cinco amigos que chega à Nova Jaguaruara para investigar a possibilidade de serem instaladas torres de energia eólica no local. Vindos de Fortaleza, esse grupo não poderia imaginar os segredos obscuros que se escondiam naquela cidade e que, muito em breve, poria todas as suas crenças e racionalidade em teste. Do mesmo modo, conhecemos Raquel, uma professora de ensino fundamental que está observando em Bruno, seu melhor aluno, mudanças estranhas de comportamento. Enquanto, nesses primeiros capítulos, essas histórias são apresentadas de maneira aparentemente aleatória para nós, não podemos sequer imaginar que haja a possibilidade de estarem interligadas de alguma forma e Mauro soube fazer isso de maneira magistral.

Nova Jaguaruara é não apenas um livro de terror passado no Brasil cuja leitura é muito válida por trazer no seu cerne momentos históricos do nosso país e elementos que conversam com a nossa cultura e crenças, mas também por ser um livro que, enquanto faz tudo isso, ainda tem a habilidade de evocar discussões e reflexões acerca de uma realidade que nos cerca e é tão presente no dia a dia de cada pessoa no Brasil e no mundo.

A luta do bem contra o mal é trazida não apenas a um patamar religioso ou fantástico, mas elevada a um nível muito humano, em que podemos reconhecer nas próprias personagens a batalha entre certo e errado, verdade e mentira, fé e descrença. Além das inúmeras críticas sociais veladas intricadas numa narrativa que prende o leitor através do mistério e da contínua aura de suspense que ancora os capítulos. Padre Honório (que não é um padre de verdade) faz uma crítica aos escândalos da igreja católica e mostra a natureza gananciosa do homem no mais extremo patamar, mas ainda vai além, somos mostrados, aquém do fato de ele ser um homem comum passando-se por padre, de que mesmo os sacerdotes consagrados e aqui me refito a todas as religiões sem exceção, são homens comuns e pecadores como todos os outros. Mesmo ele usando a igreja católica como um claro exemplo (e não sei se por indignação própria, por mero acaso, por experiência ou crítica direta) talvez motivado pelo enfoque que se dá qualquer tipo de absurdo comportamento por parte dos membros de seu clero, as falhas humanas presentes em Honório e nos membros do seminário de Fortaleza, estendem-se a representantes religiosos de todas as crenças espalhadas pelo mundo, porque o mal está arraigado no cerne humano e não na religião em si.

Durante minha leitura percebi traços de intertextualidade bíblica na narrativa, principalmente pela presença de Bonifácio como um homem "milagroso" e justo. Além, claro, dos elementos de crença popular representados pelo bode em figura simbólica do mal, tal qual a serpente. Aliado a uma guerra entre a beatice comum na cultura sertaneja em contraste com o ateísmo de personagens que representam uma geração cada vez mais toldada no cientificismo e nas relações artificiais do mundo moderno. Além, claro, do quase total ateísmo de Bonifácio, figura da qual se esperaria, por razões óbvias, uma fé inabalável. Entra-se também nas questões de abuso de poder, violência doméstica, feminicídio, corrupção policial e, ainda que não totalmente explícito como os demais, descaso público governamental. Tudo isso intricado de maneira maravilhosa nas entrelinhas da história que vai e volta no tempo revirando nosso estômago e atingindo o âmago das nossas crenças.

Uma pessoa sem Deus é como um bicho solto à própria sorte.
Apesar de possivelmente não ter esse propósito, Mauro soube não somente retratar a religiosidade do sertão, firme e inabalada, enquanto traz junto a esta, reflexões quase filosóficas acerca do estilo de vida moderno em passagens como "O homem tem pressa e se vicia em soluções práticas para seus problemas" em que contextualiza a temática religiosa com a apostasia crescente na sociedade. Em si, o livro é uma enorme metáfora para a hipocrisia religiosa, descaso social, apatia e decadência humana ao mesmo tempo que trata essas questões de maneira pertinente numa narrativa bem amarrada, cheia de tensão e com cargas de horror ora explícitas, ora sugeridas. Há sim alguns problemas com a escrita ou a caracterização de algumas personagens, como no caso das expressões usadas pelas crianças, mas nada que comprometa de modo significativo a leitura desse livro fantástico de quem promete ser um dos mestres do terror nacional. Nova Jaguaruara evoca obras no estilo de Stephen King e H.P. Lovecraft de um jeito que é a cara do Brasil e envolve muito da nossa história e identidade cultural. Vale muitíssimo a pena ser lido. Finalizo essa resenha  com três trechos dos capítulos finais do livro que exemplificam a imagem do inferno metaforizado pelo ponto de vista religioso e explícito na realidade social em que estamos inseridos.


"Ela viu  fome, miséria e destruição. Sentiu como se nada na vida jamais pudesse dar certo. E foi tomada naquele instante pela sensação mais triste e desprezível que uma pessoa poderia sentir. Ela sentiu que estar vivo era um grande azar. E experimentou um sentimento amargo de descrença nas pessoas, descrença na sorte, descrença no futuro." (Capítulo 27)

Reconhecem esse quadro aí em cima? Eu sim.

"Todas as sensações de derrota, dor e doença são misturadas e injetadas em você naquele lugar. Gritaria e lamentação por toda parte. Um verdadeiro inferno." (Capítulo 28)

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

"E não demorou para que um bando de pessoas desesperadas e sem um líder perdessem o fino fio do equilíbrio. Saques aos mercados e às casas foram praticados. Água e comida foram roubadas e desperdiçadas em golpes fracassados. Pessoas morreram pela fome, pela doença e pela rivalidade gerada." (Capítulo 29)

Essa aí gostaria de comentar. Quando li e marquei essa passagem fiquei pensando que ela se estendia além da simples representação ficcional, assim como a citada seca de 1915 e os campos de concentração cearenses que aparecem na narrativa. Encarei essa passagem de uma maneira mais social por assim dizer, o líder, ao meu ver, estende-se mais que um líder religioso, mas aplica-se a um representante político, alguém que realmente lute pelos interesses de um povo que sofre com a violência representada nos saques, na fome causada pela latente desigualdade social acentuada pelo descaso educacional cada vez maior. Gente, estamos em um país que está emburrecendo de maneira assustadora, carregado numa onda de ódio e perseguição às minorias e as mulheres, além de um analfabetismo político e ausência de criticidade preocupantes. Basicamente, estamos comendo uns aos outros vivos ao ponto de transformar a convivência na terra o inferno que antes só existia no nosso imaginário e numa possível punição pós-morte. 

Dito isso, deixo aqui minha forte recomendação para ler Nova Jaguaruara e aventurar-se nessa obra promissora de horror que cumpre a promessa de revirar seu estômago e gelar sua espinha! 

Abração e até o próximo post!

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