segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Desafio 365 dia #8 Escreva uma história em segunda pessoa


Dia #8 Escreva uma história em segunda pessoa


Gente, vou confessar pra vocês, eu definitivamente penei horrores pra cumprir o desafio de hoje, sério. Pesquisei um monte pra conseguir tentar construir esse texto! Não é uma coisa que eu seja acostumada a fazer e, mais ainda, não é algo que a gente seja acostumado a ver, mas foi realmente interessante tentar! Espero que tenha valido.

Você fecha os olhos. O mundo à sua volta vai lentamente desaparecendo conforme seus sentidos são submersos no planeta que você traz dentro de si. O nó aperta a sua garganta provocando uma dor incômoda e latente, o gosto amargo preenche sua boca e você se sente enjoado, a vontade de se encolher aumenta, mas você não se mexe, não se atreve. Se o fizer a realidade te engolirá e você sabe que não é capaz de lidar com ela.
            Um som. Você pode ouvir nitidamente, são passos rápidos e leves como a chuva que cai do lado de fora. Você espera, imóvel, a porta sendo aberta e os passos se tornando mais próximos, parte de você já sabe o que vai acontecer, o que a pessoa recém-chegada dirá quando o vir.
— Ah, de novo! — Exclama ela.
            Um sorriso arqueia-se no seu rosto. Você não precisa olhar para ela para ver a expressão de frustração, o revirar de olhos e a careta de desagrado. Lentamente, seus braços relaxam e seus olhos se abrem de encontro ao rosto da sua mãe. O olhar reprovador dela causa uma enorme vontade de rir no íntimo do seu ser, mas você se controla.
— Kiara, quantas vezes já falei para não fazer isso? — Ela aponta para você.
— Parei de contar a meses. — Você responde ignorando completamente a raiva na voz dela.
— Não me teste. — A ameaça te faz querer rir mais. — Desça para o jantar.
— Cinco minutos. — Sua promessa é vazia e você sabe que ela tem conhecimento disso.
— Já ouvi isso antes.
            A porta fecha e você volta a fechar os olhos. O som da chuva do lado de fora guia sua mente para o quarto que lhe cerca, a velha escrivaninha, o papel de parede verde, o armário de portas vazadas por onde uma vez você viu sua irmã mais velha transar com o namorado durante uma festa que você não deveria participar. A cômoda cheia de perfumes e maquiagem que não são seus, mas sim furtados da mãe e da irmã, além da caixa de cerâmica que você ganhou no seu último aniversário e que guarda a relíquia: o relógio digital do homem aranha que Mark te deu antes de se mudar para São Paulo.
Mark.
            Sua cabeça oscila. Você comprime os olhos para evitar as lágrimas, sabe que vai demorar horrível e dolorosamente até se verem outra vez. Mas não importa, você confia na promessa que fizeram. Sabe que ele virá até você. A cama está próxima à janela, por isso você ouve a chuva tão bem, e, ao seu lado, os vários pôsteres de bandas que a sua mãe odeia que você goste, mas você continua ouvindo principalmente como uma forma de provoca-la. Faz parte da sua natureza.
            Então o grito irrompe. Seus olhos se abrem e seu corpo se move sozinho até a porta, no andar de baixo sua mãe grita de desespero, algo quebra. A voz da sua irmã mais velha soa, e logo outro grito vem. O som de vidro se quebrando vem, as vozes da sua mãe e irmã soam na rua e você alcança a janela a tempo de vê-las correndo ao longo da rua, mas no andar de baixo o som de coisas quebrando permanece. Vidro estilhaçado, móveis chocando-se contra a parede, você ouve tudo com uma mistura de terror e frustração. Sua família se foi, a salvo na rua, mas você estava ali dentro, sozinha.
            Você se vira para porta mais uma vez e o silêncio te envolve. Não há um único ruído além do som da chuva do lado de fora. Seus passos são cautelosos enquanto se movem sem som até a porta e sua mão trêmula segura a maçaneta gélida, mas, para sua surpresa, está trancada. Você não consegue abrir. Uma espécie de pânico lhe devora, você está presa. Sua melhor alternativa é ligar para Mark, mas não importa o que você faça, seu telefone não está em parte alguma.
Passos.
            Vozes sussurradas vem pelo corredor. Seu corpo retesa enquanto você tenta reconhece-las ou compreender o que dizem, sem sucesso.  Seus olhos vasculham o quarto em busca de algo para se defender, onde seus saltos agulha haviam ido parar?  Os sussurros se aproximam, a porta do armário está aberta e é lá que você se esconde, na segurança da escuridão parcial, os olhos assustados fitam o lado de fora do quarto quando uma chave é girada e ele entra no quarto. Você tem a impressão de já tê-lo visto antes, mas é incapaz de pôr seus pensamentos em ordem, ele suspira e começa a chamar o seu nome, você põe a mão na boca para abafar sua respiração audível.
            Algo gélido encosta na sua nuca e você fecha os olhos para conter o impulso de gritar, a adrenalina correndo pelo seu corpo, ele levanta e você se encolhe, a pulsação como tambores nos seus ouvidos.
— Vamos lá, Kiara, saia logo daí. — Ordena ele, impaciente. — Não me obrigue a tirá-la de novo.
            Lágrimas enchem seus olhos. Logo ele vai começar a contar mentiras para fazer com que você saia, mas você é mais esperta, sabe que se ele a descobrir, você está morta. A voz dele resmunga algo que você não compreende, seus olhos se abrem outra vez, não é mais seu quarto ali, o papel de parede verde desapareceu, a cama na qual ele está sentado não é de jacarandá, mas tem a armação de ferro cuja tinta está saindo em vários lugares.
— Ouça... — Você tenta não prestar atenção ao que ele diz. Como fora parar ali é a pergunta que toma mais espaço na sua mente. — Posso imaginar o trauma que você passou, mas eu não vou te fazer mal.
            Aí vem as imagens. Sua mente é tomada por elas. A porta se abre e o homem entra, mas não aquele que está sentado naquela cama estranha, alguém do qual sua mente se força a esquecer, o rosto está borrado, mas você consegue distinguir os olhos azuis, braços te agarram com força jogando-a contra a parede, sua cabeça bate e a dor preenche todo o seu crânio, a visão fica embaçada, seus sentidos enfraquecem. Ele se abaixa diante de você e começa a te estrangular com a mão poderosa, o ar desaparece e o desespero cresce, uma das suas mãos tenta puxar o braço dele dali, a dor cresce, sua outra mão vasculha o chão atrás de qualquer coisa.
Então a mão toca as correias finas da sandália.
            Você a havia usado no dia anterior, na festa de formatura de Mark. Foram semanas implorando para que sua mãe lhe deixasse compra-las. As tiras finas cruzavam-se até uma mais grossa que contornava o tornozelo, a parte da frente era plataforma até o peito do pé, o salto agulha crescia sete centímetros e meio atrás em uma fina linha prateada. Desesperada por oxigênio sua mão agarrou aquele sapato lindo e caro, com uma força que você desconhecia e levemente cega pela dor, você investiu o salto contra o estranho.
            O ar finalmente voltou ao seu corpo, guinadas dolorosas penetrando pela sua garganta, o pescoço vermelho machucado que você acariciava naquele momento, sua mãe gritou na porta do quarto desesperada, você ergueu os olhos aquosos para ela, o homem estava diante de você, a poça de sangue se formando do seu pescoço perfurado, a imagem fez com que você se encolhesse, você queria dizer que não fora sua culpa, que ele a havia atacado, mas sua voz desapareceu. Sua irmã mais velha aparece logo depois e cai assustada, os olhos tomados de terror.
            Seu corpo treme. A realidade aos poucos vai recaindo sobre você, quando seus olhos focalizam novamente o rapaz não está mais na cama, mas abaixado diante de você. As mãos seguram delicadamente seus braços, ele a ajuda a levantar, não está mais escuro, você não está mais no seu armário, mas em um banheiro. Agora você sabe.
Aquele é o purgatório onde você cumpre a pena do seu crime.
— Muito bem... — O rapaz sorri quando você o acompanha até a cama. Tudo é branco, não há mais móveis além da cama e de uma cômoda e uma cadeira de plástico próxima a uma janela.
Chove.
— Isso mesmo. — Ele a encoraja. — Agora tome o seu remédio.
            Gritos vem do lado de fora, abafados por mais portas de metal que ocupam a extensão do corredor. Você aceita o comprimido e observa o rapaz. Ele é alto, os cabelos curtos e pretos, a pele amorenada, os olhos castanhos e os braços fortes. Traja uma roupa branca com jaleco e tem um sorriso pacificador. Há mais uma coisa que seus olhos captam rapidamente, bordado com linha azul-escuro no bolso do seu jaleco está escrito um nome.

Mark.

2 comentários:

  1. E eu achando que o tal Mark de SP era referencia a mim e ao seu profundo amor e vontade de me ver!
    Adorei a história, adoro quando o personagem tem loucura nivel ver coisas e tomar remedio <3
    No começo achei que ia ser algo sobrenatural, ai pensei em violencia doméstica. Só quando vi o que era que me lembrei de você falando o tema da sua história desse dia dhsaj

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    1. Como eu disse antes, você se acha um pouquinho demais, não concorda? kkkk
      Você é, definitivamente, sinistra '-' mas eu gosto disso. Eu ainda não sei como isso aí saiu, mas saiu kkkk

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