segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Pseudônimo Mr. Queen - Loraine Pivatto

Ano: 2015
Gênero: Ficção Especulativa
Páginas: 404
Sinopse: O ano é 2012,
Dia 21 de dezembro,
E a temida profecia maia acaba de se cumprir.

Cidades devastadas,
Ruas vazias,
A população mundial bruscamente reduzida,
E a história dos sobreviventes começa a ser contada.

Os escolhidos iniciam um novo mundo, baseado nas novas regras passadas através dos sonhos.

Agora serão 2 vidas:
A primeira até os 70 anos,
A segunda, a partir dos 20 e até os 100.
150 anos no total.
Nenhum segundo a mais.

A nova sociedade começa a surgir:
Sem desigualdade,
Sem dinheiro,
Sem doenças,
Sem possibilidade de mortes prematuras,
Exceto por uma maneira.

Uma única maneira de morrer, mas que não pode ser revelada.
Um segredo que precisa ser guardado.
Para salvar a sociedade de si mesma.

É a primeira vez que eu participo de um booktour, foi uma experiência bem diferente e só aceitei porque achei  inusitada a ideia. O livro em questão é a ficção científica da autora independente Loraine Pivatto, vocês sabem que eu não tenho a menor experiência com ficção científica, minha bagagem se resume a algumas poucas distopias que li, portanto, vou me ater ao enredo da história e dizer as minhas impressões acerca do que li. Em primeiro lugar, esse é o segundo livro de autor independente que eu leio e, por ser uma, sei as dificuldades enfrentadas no cenário literário do Brasil nos dias de hoje, por isso, vou ser bem parcial no meu comentário.
A história começa com Regina Brandão. Ela não sabe como o mundo acabou, tudo que consegue lembrar é que matara uma pessoa e, mesmo tendo as devidas razões para fazê-lo, sente-se pesada. Após acordar junto com outras poucas pessoas no chão de uma quadra, o tumulto da novidade recai violentamente sobre eles, os sobreviventes responsáveis pela construção de um novo mundo, dessa vez, sem desigualdade, sem mortes prematuras, sem doenças, aparentemente, a sociedade perfeita. A utopia do comunismo é tratada de forma quase literal no livro, inclusive, há um debate bem interessante sobre capitalismo X socialismo que achei bem pertinente para a história. 
A relutância em fazer parte de uma sociedade administrada por um governo "invisível" é quase geral, alguns se recusavam terminantemente a ceder ao igualitarismo, tentando impor-se sobre os demais apenas para ver suas tentativas frustradas logo em seguida. E assim, a nova sociedade começou a ser construída, Regina decide abraçar sua nova vida e começar de novo, tendo em seu encargo Maria Eduarda, a filha pequena da mulher que um dia ela achou que fosse amiga. A convivência não é fácil, pois a menina herdara muito do mau caráter da mãe, Quando a menina alcança a maioridade legal, Regina a emancipa para o bem da sua própria paz interior, tudo que Maria Eduarda lhe trouxe de bom na vida fora Larissa, a quem a mulher adota como neta e cria como filha dando amor, educação, conselho e orientação vendo a menina crescer forte, decidida e com uma personalidade brilhante. Desse modo, Regina sente-se capaz de deixar para trás sua primeira vida com a sensação de dever cumprido e continuação.
Larissa Brandão, a segunda geração, cresce linda e jovial sendo disputada entre Junior e Paulo Ricardo, os dois garotos mais bonitos da sua turminha. Sua melhor amiga, Cecília, é uma verdadeira cabeça de vento (e que o vento me desculpe por tal xingamento), nessa segunda geração da sociedade, começam a surgir os primeiros sinais de desigualdade quando começam-se a classificar as pessoas através de níveis, se antes a sociedade era estratificada de acordo com o poder aquisitivo, nesse mundo era estratificada a partir da suas habilidades, beleza e comportamento. Pontuações essas que Larissa sempre repudiou; não acreditava que as pessoas deveriam ser diferenciadas daquela forma em uma sociedade que dizia-se ser igualitária, se não havia mais dinheiro ou alto consumo do bem material, mas era fornecido apenas o que cada um precisava - embora algumas pessoas conseguissem modos de burlar esse sistema - não havia necessidade daquele tipo de classificação. Entretanto, a única pessoa com quem ela podia falar sobre isso sem ser incompreendida ou duramente criticada, era seu amigo Cristiano, que compactuava do seu pensamento.
A partir dessa segunda fase da família Brandão começam os complicados relacionamentos amorosos. Nessa nova sociedade, o amor não é exatamente uma prioridade, os relacionamentos são apenas uma base de satisfação mútua e uma forma de aumentar suas pontuações no sistema. Larissa, após uma briga com Paulinho por causa do péssimo comportamento do rapaz causado pelo cego ciúmes do seu relacionamento anterior com Junior, pede refúgio (uma espécie de coma induzido) por um ano. Quando volta, seu ex-namorado está belo e bem sucedido, continuou sua vida aparentemente muito bem, Junior desapareceu e Cecília está muito pior que antes vivendo uma relação aberta com Cristiano por quem não sente nada além de desprezo. A vida de Larissa segue com os estudos e o desejo de se tornar professora de história graças ao seu fascínio pelo passado, mais tarde, ela se casa com Vicente, um ator em ascensão. Ela realmente se apaixona por ele, mas o perfeccionismo exagerado do rapaz acaba pondo um fim na relação e a separação do casal, fazendo Larissa levar consigo Vitória, única filha deles.
Vitória é a terceira geração da família Brandão, Nesse ponto, a sociedade já está alienada com as pontuações, vivendo como robôs em prol de aparecer bem perante a avaliação dos outros, não há mais sentido na vida além de obter a maior pontuação possível independente do custo disso. E começam enfim a aparecer as primeiras manifestações contra o sistema de pontuação, os denominados fantasmas. Vitória acaba se apaixonando pelo pai da sua melhor amiga Isabel, mas vai acabar descobrindo segredos que ligam esse homem a sua família e que mudarão a sua vida para sempre.
Basicamente o enredo é esse, não vou falar mais para não acabar spoilando o livro sem querer. Não há como negar a genialidade da autora em sua construção, ela renomeou as cidades brasileiras e construiu uma nova sociedade organizada de maneira magistral. A sociedade do livro é um espelho da nossa própria, um mundo dominado pela tecnologia e uma nação controlada por uma minoria, tão centrada no próprio umbigo que é incapaz de questionar, de criticar, de analisar a situação à sua volta, mas que vive em função do olhar avaliativo dos outros, apenas com o intuito de manter a aparência perfeita para agradar os olhos dos outros. Como Pitty, um dia, muito bem descreveu: "abraços vazios, olhares de gelo, tão descartáveis quanto cascas no chão, flashes capturam a melhor paisagem, mas quem vê foto não vê coração." E essa foi uma das coisas que mais me chamou atenção na história. É realmente um livro que leva você a refletir, a se questionar, a avaliar o mundo que te cerca e o seu papel nessa sociedade cada dia mais perdida.
Outro ponto muito bom com relação ao livro é a sua estrutura. A história é contada de uma maneira que faz você ficar cheio de perguntas que só serão respondidas em um ponto específico do enredo, fazendo assim sua curiosidade ficar presa até o final da leitura. Quem é o sequestrador que se veste de mulher? Quem é que manda as músicas sob o pseudônimo de Mr. Queen? Qual é a única forma de morrer? Você levanta hipóteses durante todo o livro e, mesmo assim, os indícios que a autora te dá são tão sutis e pequenos que é quase impossível chegar a uma dedução correta, portanto, você será surpreendido de qualquer jeito. Nesse ponto, posso dizer que ela construiu uma história digna de ser lida pela rainha do romance policial Agatha Christie, de quem sou uma fã assumida. O clima de distopia me lembrou muitas vezes O Doador de Memórias, a sociedade perfeita regida por normas igualitárias que, quando começa a ser questionada, entra no caminho do colapso. Acho que é um livro muito válido para refletir.
Em contrapartida, uma coisa que eu não gostei muito (e preciso ser sincera), foram os personagens. Não consegui ter uma identificação com eles, mais ou menos como aconteceu em A Garota do Trem, a autora criou personagens fáceis de odiar e mesmo os que deveríamos amar, odiamos. Foi o que aconteceu comigo. Cecília sem dúvidas foi a principal delas, uma mulher que é a cara da sociedade de hoje, entretanto achei ela um pouco estereotipada. Mas tentei pensar que foi proposital. Ela é falsa, arrogante, egoísta, fútil, enfim, quem pôs significado na palavra nojo. Paulinho é um psicopata, carente de atenção com uma índole péssima, manipulador, agressivo, egoísta, egocêntrico, um verdadeiro vampiro que se nutre da dor dos outros e os usa como fantoches. Cristiano é um dos mais racionais como Larissa, ainda assim, eu via em ambos uma passividade que me irritava muito, apesar de viverem relacionamentos até certo ponto abusivos, os dois simplesmente deixavam rolar até o ponto em que se tornava insuportável e os forçava a tomar uma atitude, no caso, mais Larissa que Cristiano que continuou com Cecília basicamente a primeira vida inteira. Isabel é uma garota sem autoestima nenhuma, que vive em função de homem e eu odeio esse tipo de mulher que não sabe viver sem se segurar num "macho", ela me irritava profundamente, Vitória era meio idealista, apaixonada pela beleza e a posição de um homem com idade pra ser seu pai totalmente cega aos defeitos dele. Nesse ponto, a história me deixou um pouco desconfortável.
Foi uma leitura muito prazerosa, é um livro que eu leria de novo e recomendaria para qualquer pessoa que me perguntasse se vale a pena ler. Dou meus parabéns à autora pela sua brilhante ideia e pela genialidade da sua construção. O booktour, creio eu, ainda está acontecendo, se você se interessou pelo livro e quer ler, entre em contato com a autora pelo skoob ou pelo email: lorainepivatto@gmail.com
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