sexta-feira, 8 de março de 2013

Querido Vovô,


Querido vovô,
ainda me lembro da alegria que eu sentia quando o senhor chegava em casa às nove da manhã vindo da feira com um monte de biscoitos que faziam festa para mim e minha irmã... O seu sorriso aberto era um dos melhores presentes e não havia maior alegria do que ouvir o senhor nos chamando de "mamães pequenas" com aquela vozinha calma e rouquinha.
Eu fui crescendo, as coisas foram piorando um pouquinho e sei que mesmo sem muitas vezes o senhor entender porque eu estava chorando ou irritada, o senhor estava sempre lá presente quietinho... A cada ano, eu me acostumava tanto com a sua presença que não percebia que o senhor ia ficando mais e mais velhinho... Parecia até brincadeira que já passava dos 90!
Ai o senhor começou a rejeitar o banho... Ficou fraquinho demais para ir ao seu roçado que sei que era muito estimado... E começou a ficar até um pouquinho rabujento e resmungão, mas mesmo assim a sua presença era parte da nossa vida, era o que deixava tudo mais especial... Eu ainda consigo ouvir seus passos pesados subindo a escada, porque não tinha mais muita força nas perninhas, lembro que aos poucos foi trocando a comida mastigada por caldo de feijão porque era melhor pra comer... E mesmo do meu jeito estranho e até estúpido, eu amava tudo aquilo em você.
Agora o peso da sua ausência aqui é quase sepulcral... Tem horas que desço até a escada pra perguntar se o senhor quer assistir... Ainda não me acostumei a não deixar mais a luz do quintal acesa para o senhor ir ao banheiro... Ou mesmo perguntar toda a tarde se tem café. É horrível sair pra faculdade e não te ver assistindo televisão... Sinto falta de como o senhor me fazia sentir criança todos os dias... Desculpa por qualquer coisa vovô... E mesmo que eu saiba que a vontade de Deus não é a minha... E que o senhor não sabe ler essas palavras, eu confesso que não estou pronta pra deixar você ir... E não me conformo em te ver assim... Pode ser que eu esteja sendo egoísta, mas nada dentro de mim será a mesma coisa se você for embora...
Eu te amo muito vovô... O seu cabelo branquinho e suas mãozinhas grossas, a sua voz fraquinha e rouca, a sua mania de beijar todas as imagens dentro de casa, até mesmo sua aversão na hora de tomar banho. O senhor nunca falhou comigo ou com a minha irmã... E nada no mundo me faria mais feliz do que continuar ouvindo você me chamar de "mamãe branca" mais uma vez...
Com amor da sua neta,
Katharynny.

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