domingo, 9 de outubro de 2016

As Virgens Suicidas

Título Original: The Virgin Suicides
Ano: 1999
Direção:  Sofia Coppola
Gênero: Drama, suspense
País de Origem: EUA

Sinopse: Durante a década de 70, o filme enfoca os Lisbon, uma família saudável e próspera que vive num bairro de classe média de Michigan. O sr. Lisbon (James Woods) um professor de matemática e sua esposa uma rigorosa religiosa, mãe de cinco atraentes adolescentes, que atraem a atenção dos rapazes da região. Porém, quando Cecília (Hanna R. Hall), de apenas 13 anos, comete suicídio, as relações familiares se decompõem rumo a um crescente isolamento e superproteção das demais filhas, que não podem mais ter qualquer tipo de interação social com rapazes. Mas a proibição apenas atiça ainda mais as garotas a arranjarem meios de burlar as rígidas regras de sua mãe.

Esse filme é baseado no livro da autora  Jeffrey Eugenides de mesmo nome, eu ainda não li o livro, na verdade, achei esse filme meio que por acaso quando olhava uma lista de livros que falava abertamente sobre suicídio, não que eu esteja pensando nisso, pelo amor de Deus, pessoas!  Mas é um assunto complexo que me chamou a atenção e tem muito a ver com a personagem do livro no qual estou trabalhando. Vou procurar o livro depois, mas até onde percebi pelos excelentes comentários que o filme recebeu, ele é fiel ao livro. Mas ler é sempre diferente, né? O filme sempre deixa escapar alguns detalhes que o livro tem, por isso vou lê-lo também assim que encontrar, no geral achei o filme muito bom e até um pouco perturbador eu diria. Por alguma razão - meio óbvia talvez - ele me remetia sempre a obra de King Carrie, a estranha, me fazendo refletir sobre as atitudes de ambas as mães em relação às filhas e em como um mesmo comportamento pode gerar diferentes efeitos de acordo com a essência das pessoas 'vítimas' em questão. Em Carrie gerou uma raiva incontrolável que resultou em vingança pura e fria, nas meninas Lisbon a libertação através da morte, ainda que não possamos afirmar isso com total certeza, pois o filme - e imagino que o livro também - deixa muitas lacunas a esse respeito, é o que podemos supor depois de acompanhar todos os acontecimentos.
Mas vamos começar pelo enredo. O casal Lisbon tinha 5 filhas com diferença pequena de idade entre elas, coisa de um ano entre uma e outra, a mãe era uma religiosa fanática e mantinha regras rígidas como a mãe de Carrie, talvez um pouco menos lunática, ainda assim tão nociva quanto. Logo de início somos carregados pela tentativa de suicídio da menina mais nova, Cecília, de 13 anos. Ela corta os pulsos e é levada ao hospital com urgência, como o filme e o livro são narrados sob a perspectiva dos vizinhos delas a gente tem uma visão um pouco parcial das coisas, só sabemos o que eles sabem sobre elas e é isso que provavelmente torne a história tão fascinante, somos levados a um mundo com milhões de possibilidades acerca de cinco meninas cuja essência desconheçamos. Cecília é salva e atendida por um psicólogo, quando a observei pela primeira vez pensei em alguém indiferente, ela parecia muito alheia ao mundo que a cercava e eu não posso dizer se isso é influência da criação severa da mãe ou simplesmente parte de sua natureza. Por conselho do médico que sugere que ela tenha mais contato com garotos da idade dela, os pais de Cecília deixam as filhas darem a primeira e única festa de suas vidas, porque desde o começo do filme uma é a certeza que nós temos: todas elas vão morrer.
Na festa, que sinceramente falando nem parecia uma festa, Cecília pede permissão para ir para o quarto e, lá chegando, joga-se da janela caindo sobre uma cerca de ferro com lanças pontiagudas que a perfuram - e por sorte o filme não mostra isso explicitamente - sem nenhuma chance de salvação dessa vez. O que poderia te-la levado a fazer aquilo? Examinando o diário dela os meninos do bairro não tem uma certeza, ela gostava de observar árvores, a melancolia que passava lentamente por elas, falava das irmãs e eles sabiam de uma paixonite que ela tinha por um cara recém chegado na casa de uns tios que gostava de outra menina muito mais velha que ele. Nenhuma dessas coisas era motivo para Cecília tomar a atitude que tomou. A morte dela parece afetar as outras quatro irmãs de maneiras diferentes, elas parecem tão... como posso dizer? Alheias. É como se nada fosse capaz de atingi-las de verdade, elas não parecem apegadas a vida ao mesmo tempo que anseiam vivê-la e essa complexidade não nos ajuda a entendê-las melhor. De todas, a segunda que recebe maior atenção é Lux Lisbon (sabiam que tem uma banda indie com esse nome? Não sei se tem relação com o livro, mas foi interessante lembrar disso, eis o site deles: http://luxlisbon.com/bio) que das cinco meninas é a única que não se encaixa realmente na descrição "virgem", só na suicida. Lux é a que demonstra mais avidez por se libertar das garras fanáticas da mãe, ela é quase uma libertina eu posso dizer, e é com Trip Fontaine que ela dá asas à sua sede de liberdade no baile da escola. Mas depois da noite que passam juntos, Lux acorda sozinha no gramado do campo de futebol e quando volta para casa atrai a fúria da mãe (é de se esperar né?) que joga seu castigo sobre as outras três irmãs mesmo que elas não tivessem culpa de nada, tirando-as da escola e proibindo-as de sair de casa, nos anos 70 da lei americana eu não sei, mas acho que talvez isso contasse como cárcere privado, não? Elas começam então a contar com a ajuda por telefone dos garotos da vizinhança que as adoravam, marcam com eles de saírem à meia noite, como se pretendessem fugir, eles concordam e, como é de se esperar, o enredo da fuga não é como ninguém esperava.
A gente não pode dizer com certeza se a atitude delas foi motivada pelo cárcere devo dizer exagerado da mãe, se porque elas pensavam que era a única forma de serem realmente livres, como era a ideia de Platão, tudo que você fica pensando é na razão de cinco meninas que tinham tudo tirarem a própria vida mesmo em face das circunstâncias, se pergunta por que não se rebelaram contra a mãe, por que não fugiram? Por que, dentre tantas possibilidades, escolheram aquele caminho. E por mais que tentemos e tentemos entender, como os meninos que apesar de todos os anos e acontecimentos nunca se esqueceram delas, não conseguimos. Talvez seja justamente esse mistério que a autora queria quando colocou a história sob a perspectiva deles e não das próprias meninas ou de um narrador onisciente, deixar essas lacunas que nos levassem a refletir, a pensar, a buscar respostas que nunca vamos ter. O que senti quando terminei de ver? Não sei dizer com certeza, aquele peso no peito, como se a esperança fosse se esvaindo devagar, como se aquele destino que mesmo por outros meios virá para todos, fizesse todo o resto perder o sentido. Uma espécie de vazio que faz toda a existência ser desnecessária... em mim foi essa a sensação desse filme, e não estou, confesso, tão ansiosa para descobrir que espécie de vazio esse livro vai me deixar quando o ler.

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